quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Papel da Espiritualidade na Prevenção das Drogas


http://eirene.com.br

Carlos Tadeu Grzybowski

INTRODUÇÃO

O presente artigo procura refletir sobre o papel da religião, entendida como transmissora de esperança, no processo de prevenção da dependência química, especialmente no trabalho voltado para adolescentes.
Palavras-chave: religião, dependência química, esperança, adolescência.

A APOLOGIA DA DROGA

Existe unanimidade entre os autores atualmente que a dependência de drogas tem uma origem multifatorial (Gutierres et al., 1994; Humes et al., 1994; Monteiro, 1990).
Quase diariamente a temática volta à tona, deatacada pela imprensa como associada à violência e de desestabilização social. Serra (1999), enquanto ministro da saúde no Brasil afirmava que: “A questão das drogas é muito mais um problema de saúde pública que de polícia. É como na AIDS:a prevenção e a educação são cruciais para se enfrentar o problema”.
A imprensa brasileira hoje faz uma apologia em torno da droga, destaca-se tanto a problemática que se esquecem as raízes mais profundas a serem tratadas.
Na experiência clínica do autor, a droga é somente um alarme, um sinal de alerta, uma denúncia clamorosa de nossa sociedade de trilhar nos caminhos que ela própria engendrou. É um sinal dos tempos, um alerta que os jovens estão tentando nos comunicar, ainda que pela via do absurdo, mas que poucos estão dispostos a ouvir.
No presente trabalho nos propomos a deixarmos de falar tanto da droga, suas conseqüências, do narcotráfico e dos crimes e passarmos a falar mais do amor, da disponibilidade e do sentido de vida.

A DROGA NA VIDA DO ADOLESCENTE

A droga na vida do adolescente de hoje não representa tanto um sinal de protesto, de revolta ou de um anticonformismo, antes é o resultado do que temos plantado em anos de uma sociedade desumana e competitiva, que treina as pessoas para terem e não para serem. Segundo Gondim (2000):
Junto com o frenesi dessa corrida materialista e consumista, aconteceu uma violenta migração para os grandes centros urbanos, tornando o mercado competitivo e forçando as pessoas a viver com um número muitíssimo maior de outras pessoas diferentes. Nasceu a globalização do mercado, o neoliberalismo e a pluralização da sociedade. Amontoando as pessoas nos grandes centros urbanos, explodiu a violência, a família perdeu vínculos de afeto, floresceu a necessidade de lazer e o comércio de drogas cartelizou-se. (p.28)
Hoje a droga não se limita a um grupo de adolescentes marginalizados, mas aparece na história da humanidade como sintoma de uma desadaptação geral. A realidade global se apresenta com toda uma oferta legal e ilegal de substâncias cada vez mais perigosas, produzidas pelas multinacionais farmacêuticas, interessadas em vender seus produtos; multinacionais do tabaco e do álcool, capazes de controlar enormes fluxos de dinheiro e inclusive administrações e governos inteiros.
Constantemente lemos reportagens nos jornais sobre vítimas de drogas, aumentam a cada dia os crimes relacionados ao vício e a idade dos dependentes é cada vez menor. Às vezes ouvimos de algum jovem na vizinhança que se tornou dependente de álcool. Outras vezes, ao sairmos para fazer compras no centro da cidade, nos confrontamos com a dura realidade de ver pessoas se drogando. (Deutschen Behinderhilfe Aktion Sogerkind, p. 8)
Os meios de comunicação de massa têm sido usados amplamente para nos fazer crer que a Máfia Internacional do tráfico de entorpecentes são alguns sujeitos mal-encarados, com traços de índios andinos ou mulatos cariocas, apanhados com enormes sacos de pós que certamente iriam levar para sujeitos vestidos de preto, com um charuto no canto da boca, escondido em algum fundo de armazém da Sicília ou de Nova Yorque. A bem da verdade, encontraremos mais facilmente os reais “mafiosos” sentados atrás de escrivaninhas de importantes multinacionais, respeitáveis chefes de família e destacados na sociedade – muitas vezes por sua filantropia.
A droga hoje está em todo lugar. Nas ruas da grande São Paulo, entre crianças que remexem latões de lixo procurando algo para comer e entre adolescentes belos e robustos do primeiro mundo, bombardeados dia e noite, além dos limites suportáveis, com as violências das ficções da TV, do rock e dos jogos eletrônicos.

O QUE SIGNIFICA OCUPAR-SE DO TEMA DAS DROGAS HOJE

Ocupar-se deste tema hoje em dia significa ocupar-se da família, da escola, do trabalho, do tempo livre, da cultura, das relações interpessoais e destas com o ambiente. Significa interessar-se pelo funcionamento das instituições, do território, da sociedade em seu conjunto. Significa interessar-se por outros povos e continentes. Leite (2001), afirma que:
Os custos da dependência incluem gastos pessoais e familiares, do sistema de saúde, de perdas laboriais, de redução de impostos, do sistema judicial e correcional, de serviços policiais, exercendo um peso importante no orçamento nacional. Tratar a dependência significa investir para a redução destes gastos já citados e a literatura científica internacional vem repetidamente apresentando os resultados positivos deste investimento. (p.26)
Também significa trabalhar com os jovens na visão que tem em relação à vida. Fornecer-lhes novos símbolos e significados. Introjetar-lhes aqueles valores autênticos que foram esquecidos em sua infância. Restituir-lhes a esperança no futuro e colocá-los em condições de fazerem projetos.
O fato de uma pessoa se tornar um drogado depende, até certo ponto, das condições e do desenvolvimento de sua infância. Porque nessa fase, pela primeira vez, são fixados os parâmetros que vão definir como ela seguirá a vida futura. Essas delimitações ocorrem principalmente nas fases de transição: ingresso na pré-escola, início das aulas, entrada na puberdade, etc. (Deutschen Behinderhilfe Aktion Sogerkind, p. 11)
Desta forma entendemos que o trabalho com a questão da droga estende-se para além das questões do tratamento das compulsões ou do combate ao comércio ilícito de substâncias psicoativas, mas inclui obrigatoriamente ações de perspectiva sistêmica: contra os meios de comunicação que, condicionados à busca de sensacionalismo, estampam em primeira página a foto do adolescente que foi encontrado com um punhado de droga no bolso, mas que se calam sobre o comentar que muitos de nossos médicos estão prescrevendo aos jovens tranqüilizantes, que na prática médica deveriam ser destinados aos doentes mentais severos ou àqueles que sofreram graves traumatismos; contra o aumento do consumo de bebidas alcoólicas entre crianças nas famílias socialmente nobres; contra a atitude de pais que, nos menores sintomas, entopem seus filhos de remédios sem consultar um profissional; contra as cenas de violência, centenas de homicídio, milhares de imagens onde se bebe álcool e contra inúmeras situações nas quais homens e mulheres são instrumetalizados, vendidos, humilhados, violentados e desfigurados.
O entendimento desta trama relacional é imprescindível para se poder haver uma ação mais efetiva no que concerne ao uso de drogas pelo adolescente. Nas palavras de Bertallanfy (1976):
A ciência clássica procurava isolar os elementos do universo observado – compostos químicos, enzimas, células, sensações elementares, indivíduos em livre competência e tantas coisas mais, na esperança que, tornando a juntá-los, conceitual ou experimentalmente, resultaria num sistema de totalidade – célula, mente, sociedade – e seria inteligível. Agora aprendemos que para compreender não se requer somente os elementos, mas sim as relações entre eles. (p.xii)
De forma sintética podemos concluir que se ocupar do tema das drogas significa ter uma compreensão da realidade complexa na qual estamos inseridos e não apenas de uma causalidade linear do fenômeno, o que pode gerar um simplismo.

PASSAR DA CONDIÇÃO DE DROGAR-SE PARA A CONDIÇÃO DE AMAR-SE

Picchi (1986) levanta o questionamento de quais seriam as razões que o adolescente de hoje em dia, diante desta realidade complexa, teria para não se envolver com a droga:
Então me dêem um bom motivo pelo qual o nosso adolescente, frágil, privado de uma forte consciência crítica, num jogo de forças entre a atração e a repulsão, deveria dizer não ao coercivo que lhe oferece marijuana, uma pílula, álcool ou cocaína. Dêem-me uns bons motivos pelo qual, naquelas famílias em que a confrontação e o diálogo têm sido sacrificados pela busca do êxito, do dinheiro e do bom nome, onde não se ensina a expressar os sentimentos, onde o compartilhar tem sido delegado à babá eletrônica e aos brinquedos caros, onde os pais se envergonham de abraçar os filhos e dizer-lhes: “Filho, eu te amo!” Os jovens deveriam ser capazes de assumir as próprias responsabilidades, de serem honestos e claros, atentos e disponíveis para com seus semelhantes.(p.5)
Diante de uma realidade social desfavorável, num país onde não existem fontes de trabalho nem escolas suficientes para atender toda a população, onde não existe uma infra-estrutura desportiva e de lazer, frente a um mundo que continua engrossando seus arsenais armamentistas, onde com freqüência os auxílios outorgados aos países pobres para sair de sua miséria vêm transformados em compra de armas e onde bastaria um descuido para se produzir um desastre nuclear, parece quase “sensato” que os jovens tenham medo deste modelo social e intentem buscar estados de inconsciência. Lisboa (2001), afirma que:
A droga, qualquer que seja, além de ter repercussões prejudiciais no conjunto do organismo humano, compromete o sendo crítico e moral e produz um entorpecimento emocional, tornando o usuário mais vulnerável psiquicamente. (p.51)
O neo-liberalismo tem provocado um crescente abismo entre ricos e pobres, onde famintos meninos de rua tem que perambular diuturnamente em busca de migalhas, as quais são obrigados a entregar em casa, sob ameaça de espancamento, cuja marquise de um prédio qualquer é mais reconfortante que o barraco onde ele presencia cenas de violência entre os pais. Tais crianças não vêem uma ‘conduta de risco’ quando intentam fugir desta realidade através dos “saquinhos de leite dos sonhos”.

A OPÇÃO DA ESPERANÇA

Os usuários e dependentes de drogas possuem, em geral, uma falta de esperança. São muitos os jovens que vagueiam pelas ‘baladas’ muito mais com medo da vida, que com medo da morte, sem um sentido, um significado para a vida. Estão desiludidos, cansados e não crêem na possibilidade de haver futuro. Johnson (apud Worthington, 2000) afirma que: A mente humana não se move de prazer em prazer, mas de esperança em esperança.
Profissionais da área de saúde mental, influenciados por teorias fatalistas e sem um sentido de mudança incrementam a idéia de ‘acomodar-se e conviver com o problema’ ao invés de propor ações efetivas de transformação da realidade. Devotos ‘sartreianos’ e ‘hemigwaianos’ reforçam a falta de sentido da vida para jovens que convivem diariamente com a violência, famílias quebradas pelo divórcio, ausência de afetos parentais, relacionamentos ‘informatizados’ e modelos sociais totalmente disfuncionais.
Segundo Maldonado (2004): Hoje enfrentamos um mundo de experiências subjetivas, de verdades relativas, de significados próprios, de desconfiança e de ironia. (p.20)

O PAPEL DA RELIGIÃO

A partir desta perspectiva, verifica-se o papel da religião na prevenção ao uso e drogas ilícitas pelo adolescente. Não uma religiosidade neurótica ou neurotizante, funcionando como substituo da droga, mas uma religião de valores, que proporcionem ao jovem o preenchimento de seu vazio interior, um sentido para o existir e uma razão para erguer a cabeça e dizer que a vida vale a pena ser vivida.
Grzybowski, Massolin e Plummer (1987), afirmam que a religião cumpre um importante fator preventivo no uso de drogas pelo adolescente, desde que a mesma seja vivenciada no seio da família como um importante marco de valores e não como uma imposição de leis e normas excêntricas à realidade do adolescente.
Nurco e Lerner (1996) afirmam que:
“A aceitação natural dos valores tradicionais e crenças paternas sobre o comportamento de juvenis tem sido notado como contribuição para uma atmosfera que ajuda a criança desenvolver uma direção de crenças morais próprios dela e, onde estas crenças são fortemente guardadas, podem servir para desencorajar a delinqüência mais tarde. Mas estudos de se forte aceitação paternal de crenças tradicionais pelos filhos juvenis desencoraja a dependência narcótica mais tarde são raros ou não existentes. Isto é verdade também para os estudos sobre desaprovação paternal sobre erros de comportamento dos seus filhos juvenis. Aqui levantamos a hipótese de que ambos fatores são associados de forma significativa com dependência mais tarde”. (p. 1089)
Os valores mais importantes a serem transmitidos aos adolescentes são: da responsabilidade, da honestidade, da justiça, da verdade, da paz, da esperança, do serviço, da disponibilidade e do sentido de pertencer. Todos estes são valores do Evangelho.
Quando pais, mesmo aqueles que se dizem cristãos, voltarem-se para os verdadeiros valores do evangelho, os valores da ternura, do afeto, do priorizar o ser, do diálogo e do desejo de simplesmente “gastar tempo” com Deus e com o próximo, então iniciaremos um GRANDE PROGRAMA PREVENTIVO, cujo efeito se fará sentir por 3 ou 4 gerações futuras. Esta já era a promessa de Deus para o povo de Israel quando Ele ditou o “SHEMÁ” em Deuteronômio 6: “As palavras que hoje te ordeno, tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás” – com toda a expressão de sua vida – andar, levantar, deitar, sentar. (Grzybowski, 1996, p.20)
Para Picchi (op. Cit, 1986), a prevenção ao abuso de drogas se inicia conosco mesmos, quando nos opomos…
… ao desafio lançado pelo sofrimento e o silêncio do mundo, num valoroso gesto de rebelião para construir, com vontade, um projeto de dimensão humana. Um gesto de revolução que parte do Evangelho, da atenção que Jesus dirigiu às massas em seu sermão da montanha, indicando ao homem como descobrir o significado da vida, do sofrimento, do serviço, da gratidão, da disponibilidade e da solicitude. (p.8)
Estes são os valores que a religião cristã nos lega. Este é o papel da religião na prevenção das drogas.

Bibliografia

BERTALANFFY, Ludwig von, (1976). Teoria Geral dos Sistemas, México: Fondo de Cultura Econômica.
DEUTSCHEN BEHINDERHILFE AKTION SOGERKIND, (1993). Drogas: como evitar, tradução de Dagmar Fuchs Grzybowski, Viçosa: Editora Ultimato, 1ª ed., 1996.
GONDIM, Ricardo, (2000). Orgulho de ser evangélico, Viçosa: Editora Ultimato
GRZYBOWSKI, C. T., MASSOLIN, L. & PLUMMER, A. L., (1987). O papel da religião na prevenção das drogas. Trabalho apresentado no Curso de Qualificação de Palestrantes na Prevenção ao Abuso de Drogas, Governo do Estado do Paraná, Secretaria do Estado da Justiça, Conselho Estadual de Entorpecentes, Curitiba, agosto de 1987.
GRZYBOWSKI, Carlos Tadeu, (1996). É só um golinho, Mulher Cristã Hoje, 5, 20-22.
GUTIERRES, S. E., MOLOF, M. & UNGERLEIDER, S., (1994). Relationship of “risk” factors to teen substance use: a comparison of abstainers, infrequent users, and frequent users, The International Journal of the Addictions, 29 (12), 1559-1579.
HUMES, D. L. & HUMPHREY, L., (1994). A multimethod analysis of families with a polydrug-dependent or normal adolescent daughter, Journal of Abnormal Psychology, 103, (4), 676-685.
LEITE, Marcos da Costa, (2001). Aspectos Básicos do Tratamento da Síndrome de Dependência de Substancias Psicoativas. Série Diálogo, SENAD, Brasília, 2ª ed.
LISBOA, Ageu Heringer, (2001). Sexo: desnudamento e mistério, Viçosa: Editora Ultimato
MALDONADO, Jorge, (2004). Introduccion al asesoramiento pastoral de la familia, Nashville, Abingdon Press.
MONTEIRO, M. G., (1990). Bases genéticas do alcoolismo: visão geral, Revista da Associação Médica Brasileira, 36, (2), 78-82.
NURCO, David N. e LERNER, Monroe, (1996), Vulnerability to narcotic addiction: family structure and functioning, Journal of Drug Issues, 26 (4), 1087-1095, 1996.
PICCHI, Mario, (1986). Que significa ocupar-se de la droga, Revista Il Delfino, ano XI, suplemento no. 5, sept-oct 1986.
SERRA, José, (1999, 8 de setembro). Sopro de mudança. Isto É, p.122.

WORTHINGTON, Everet, (2000). Casamento, ainda resta uma esperança – modelo para terapia breve, tradução de Werner Fuchs, São Paulo: Editora SEPAL

quarta-feira, 15 de março de 2017

Lista suja do trabalho escravo aponta 250 empregadores


Relação não era divulgada pelo governo desde 2014 e foi obtida pela ONG Repórter Brasil, por meio da Lei de Acesso à Informação.

Confira a lista completa aqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

SÍRIA: O Sonho de Bana - Poema de J.F.Aguiar

A jovem Bana


Sonho de Bana

Bana como muitas crianças
Há muito não brinca como criança
Sua Aleppo, ruas de ruínas
Sua casa, ruína, sua escola, ruína
Bombas, fuzis e balas
Não há água, não há luz
A morte não da trégua
Lágrimas, lamentos
Porquê tanto sofrimento?
Que mal fizeram as crianças?
Bana e outras como  ela
Sonha com o fim da guerra
Guerra dos adultos
Guerra de quem não pensa como as crianças
Bana sonha...sonhos bons para sua Síria
Sonha em ensinar crianças e adultos
Como vencer suas guerras....
Sem morte, sequelas
Abrir mão de suas verdades
Todas elas são mentiras
Todas elas são vaidades de maldades
Bana diga a todos que a verdadeira Verdade
Não mata, não faz injustiça
Ama a todos - principalmente as crianças
Ela não vem de fora para dentro
Vem de dentro para fora
A quem se fizer como criança
Bana cresça mas seja sempre criança!
Com soldados e bombas
Não mais veremos sua sonhada Síria.

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A escravidão não acabou


Trabalho escravo no Brasil entre 2003 e 2016, em porcentagem

349 empregadores ainda submetem os contratados a condições degradantes e subumanas
Com um adiantamento que podia chegar a cerca de 60 reais, dezenas de trabalhadores rurais foram seduzidos na década de 1990 para capinar juquira na Fazenda Brasil Verde, no Sul do Pará. Essa espécie de mato, conhecida por incomodar fazendeiros na criação de gado, foi a principal razão para um dos casos mais simbólicos de flagrante de trabalho escravo na história do País. No último mês de dezembro, enfim, a consequência: o Brasil foi a primeira nação a ser condenada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por não prevenir a prática de trabalho escravo moderno e de tráfico de pessoas.
Sobraram evidências para a responsabilização do Estado brasileiro no caso. Além de serem ameaçados caso abandonassem o emprego, os trabalhadores resgatados nesse local dormiam em barracões cobertos de plásticos e palha, sem proteção lateral, o que permitia a entrada de chuva e ventos durante a noite. Também não havia cama, o “alojamento” era de redes.
E a água, imprópria para consumo, assim como a alimentação oferecida. Isso não impedia que os trabalhadores rurais tivessem essas “despesas” descontadas de seus vencimentos, que nunca chegavam a ser pagos de fato. Ao todo, somente nessa fazenda, mais de 300 trabalhadores foram resgatados, entre 1989 e 2002.
Foi para combater situações como essa que o Brasil começou a publicar, em 2003, o “Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à de escravo”, mais conhecida como a Lista Suja do Trabalho Escravo, que reúne nomes de empresas ou pessoas que colocaram trabalhadores em situações degradantes ou forçadas de trabalho. Essa importante ferramenta, reconhecida internacionalmente, não foi publicada, no entanto, pelo governo Michel Temer no último ano, o que pode sinalizar um retrocesso maior a caminho.
A gestão peemedebista aproveitou-se de uma decisão judicial já revista para, simplesmente, ignorar a existência desse cadastro. Isso porque em dezembro de 2014, durante o recesso de fim de ano, o ministro Ricardo Lewandowski, então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu liminarmente e de forma monocrática o pedido da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) para suspender a publicação. A Abrainc representa as principais construtoras do País e está sob comando, atualmente, da MRV Engenharia.
A medida cautelar foi cassada, entretanto, pela ministra Cármen Lúcia, em maio de 2016 e o Ministério do Trabalho foi liberado para voltar a divulgar o cadastro há mais de oito meses. Mas nenhuma lista foi oficialmente divulgada até agora. A decisão do Supremo levou em conta uma nova portaria interministerial, publicada no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff, para driblar o impasse.
Na prática, a portaria flexibiliza as regras de manutenção do cadastro de empregados. Por essa mudança, as empresas flagradas com trabalhadores em condições análogas à escravidão passam a figurar em uma nova lista se firmarem um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou acordo judicial com a União. Isso significa que, desde então, o governo poderia publicar duas listas: uma com empresas que se comprometeram a solucionar o problema e outra com as que não mostraram intenção de tomar providência alguma.
Ainda assim, desde que assumiu, o governo Michel Temer ignora essa possibilidade. A omissão deliberada fez com que o Ministério Público do Trabalho ajuizasse uma ação civil pública para obrigar o governo federal a voltar a atualizar o cadastro de empregadores envolvidos com escravidão. No dia 19 de dezembro, o juiz Rubens Curado Silveira, da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, reconheceu a importância do tema e determinou que uma nova lista fosse publicada em até 30 dias, a partir do momento em que o governo fosse notificado da decisão.
Na decisão, Silveira lembrou justamente o caso da Fazenda Brasil Verde. “Esse foi o primeiro caso decidido pela CIDH [Corte Interamericana] sobre escravidão e tráfico de pessoas, o que acabou por colocar a República Federativa do Brasil no 'banco dos réus' do plano internacional", observa o magistrado.
"Nesse cenário, revela-se ainda mais preocupante a omissão atacada, pois sinaliza um retrocesso injustificado no trato do tema em uma quadra da história em que o Estado brasileiro deveria, em resposta à condenação que lhe foi imposta, redobrar os esforços em busca da extinção definitiva do trabalho escravo em seu território”.
Para Tiago Muniz Cavalcanti, procurador do Trabalho e um dos autores da ação, essa postura marca o retrocesso de políticas públicas até então elogiadas por órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). “A publicação da Lista Suja é uma política de Estado e não uma política de governo. O combate ao trabalho escravo tem de continuar”, critica. “Essa postura omissiva vem desde maio para cá e não existe justificativa para isso.”
Além de uma ferramenta de defesa dos direitos humanos, a Lista Suja também era uma referência para o mercado e bancos na hora de conceder financiamentos ou fazer negócios com determinadas empresas. Mesmo instituições privadas utilizavam o cadastro feito pelo Ministério do Trabalho antes de concluir operações de crédito para companhias. A decisão do governo federal de impedir o acesso a essa lista coloca todas as empresas no mesmo patamar.
“Para além dos direitos humanos e da questão de acesso à informação e liberdade de imprensa há a questão muito clara de mercado (para a publicação da lista). É por isso que as empresas sérias querem essa informação, é uma questão de risco. O mercado brasileiro aprendeu que só tem a ganhar ao gerenciar esse risco, não é fazer com que as empresas percam negócios”, alerta o jornalista e presidente da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamato.
Atualmente, é a ONG presidida por ele que tem conseguido obter e divulgar a Lista Suja com a ajuda da Lei de Acesso à Informação. A última foi obtida em junho do ano passado e apresenta 349 nomes de empregadores.
Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a postura do governo federal não encontra respaldo nem mesmo entre a classe empresarial do País. “Existe um grupo majoritário que não quer ser confundido com os escravagistas, porque isso pode fechar o acesso de um produto a determinado país vizinho ou cadeia produtiva no exterior”, enfatiza o Frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha contra o Trabalho Escravo da CPT.
As vozes pela atualização da lista não vêm apenas de organizações de combate ao trabalho escravo e do Ministério Público, a ONU também fez a mesma recomendação ao Brasil. No ano passado, o órgão lançou um artigo técnico de posicionamento sobre o tema, em antecipação às comemorações do Dia do Trabalho. Para evitar retrocessos nas conquistas alcançadas pelo Brasil, o documento da ONU faz uma série de recomendações, entre elas a reativação da chamada "Lista Suja" e a manutenção do conceito atual de “trabalho escravo”, previsto no Código Penal Brasileiro.
"Nota-se uma crescente tendência de retrocesso [no Brasil] em relação a outras iniciativas fundamentais ao enfrentamento do trabalho escravo, como por exemplo, o Cadastro de Empregadores flagrados explorando mão de obra escrava, comumente reconhecido por 'Lista Suja', que foi suspenso no final de 2014", registra a organização.
Nada disso comove o ministro Ronaldo Nogueira, do Trabalho, mal assumiu a pasta, avisou a interlocutores que não iria publicar a lista. A secretária Especial dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania, Flávia Piovesan, que tem capitaneado todas as ações sobre o assunto, em novembro anunciou a coordenação de um Pacto Federativo para Erradicação do Trabalho Escravo com o estado do Pará, a unidade da Federação com o maior número de casos. Nogueira enviou seu secretário-executivo, Antonio Correia de Almeida, para a cerimônia, mas a assessoria de comunicação do ministério mal registrou o fato em seu site.
Não está claro se a postura decorre de uma decisão particular do ministro, ou se há algum tipo de orientação vinda do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. Em dezembro, uma operação das polícias Militar, Civil e Ambiental de Mato Grosso, que investiga desmatamento ilegal, encontrou em péssimas condições as acomodações de empregados em uma fazenda de Padilha, em Mato Grosso, e encaminhou as imagens ao Ministério Público do Trabalho, diante da suspeita de trabalho análogo à escravidão.
Pressões de empresas do setor da construção civil, de parlamentares ou até mesmo de ministros por conta da repercussão negativa da Lista Suja do Trabalho Escravo não são novidades no País. Esse tipo de relato também era comum nas gestões petistas e encontrava conivência, inclusive, entre parlamentares do PT e integrantes do governo Dilma. No entanto, a postura da gestão Temer, mesmo com vozes dissonantes como a de Flávia Piovesan, pode sinalizar mudanças mais preocupantes. 
Há algum tempo que integrantes da bancada ruralista tentam abrandar no Congresso a definição de trabalho escravo, com o objetivo de impedir que flagrantes de trabalho em condições desumanas seja enquadrado nessa prática. Um dos patrocinadores desse ponto de vista é justamente o líder do governo no Congresso, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que foi ministro de Temer. 
Em 2014, quando os congressistas discutiam a PEC do Trabalho Escravo, Jucá tentou emplacar sua tese sob o argumento de que os termos utilizados para a identificação de trabalho escravo eram “genéricos”. “O que é sumamente revoltante para alguns pode não o ser para outros”, amenizava no texto de seu projeto. “Principalmente porque as condições de trabalho em geral não são lá essa maravilha nos campos distantes, nas minas, nas florestas e nas fábricas de fundo de quintal.”


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A Igreja e as pessoas portadoras de deficiência - um estudo para a Escola Dominical



Pr. Ronan Boechat de Amorim

1 - LEITURAS BÍBLICAS DA SEMANA

2ª-feira - 1Tm 2:1-7 e Mc 16:15-16 - A vontade de Deus é que todos sejam salvos
3ª-feira - At 10:1-22 - Um Deus que quebra barreiras e preconceitos
4ª-feira - At 10:23- 48 - Deus não faz acepção de pessoas, mas faz o bem
5ª-feira - 2 Sm 9:1-13 - O amor faz superar preconceitos e gera bondade
6ª-feira - João 9:1-12 - Para que se manifestem nele as obras de Deus
Sábado - Jó 1:13 a 2:13 - Deus é Senhor nas alegrias e nas tragédias.


2 - Quando o Amor é Maior Que o Preconceito

Em 2 Sm 9:1-13 há uma bela história de amor que vence o preconceito e as tradições e costumes que discriminam e excluem as pessoas. No texto, o rei Davi fica sabendo através de Ziba, um ex-servo do falecido Rei Saul, que um filho de Jônatas e neto de Saul estava vivo e vivia de favor na casa do rico proprietário Maquir. Mefibosete, devido a um acidente em sua infância (2Sm 4:4) tornara-se um portador de deficiência física em ambos os pés. Davi se lembra da promessa de bondade para com os descendentes de seu grande amigo Jônatas (1Sm 20:14-17) e manda buscar Mefibosete. Mefibosete compara-se a um cão morto, indigno da atenção e bondade de Davi, mas o rei Davi o coloca sob sua proteção e como parte de sua família, pois comia sempre à mesa do rei como um filho (2Sm 9:11 e 13). Davi restitui a Mefibosete todas as propriedades que haviam pertencido a Saul e ordena a Ziba que passe a trabalhar para Mefibosete, administrando as propriedades e os que trabalhavam nelas para que não falte o sustento e o conforto a Mefibosete e à sua família.

Numa época e num lugar em que a sociedade e a religião (inclusive o judaísmo) afirmavam que a pessoa portadora de deficiência era alguém que tinha uma maldição colocada por Deus, e que precisava viver isolada para não contaminar o povo de Deus, Davi prefere, por amor, ouvir a voz do seu coração para exercitar a bondade e a justiça. Podia acomodar-se aos valores e preconceitos de seu tempo e não fazer nada.
A deficiência não é da vontade de Deus, não é um castigo de Deus e não tem um sentido em si mesma. Se a deficiência tem algum sentido, é a sua superação. E a mais fantástica superação é quando as pessoas portadoras de deficiência são incluídas na vida social, tratadas com respeito e, como pessoas, sentindo-se vivas e companheiras e achando que isso é bom e vale a pena. Com e apesar das deficiências.
O amor sempre rompe barreiras. O amor sempre faz diferença.


3 - Pra início de conversa.

a) Há poder em nossas palavras, tanto para abençoar e apaziguar quando para ferir e criar ódio. Qual deve ser a sensação de uma pessoa portadora de deficiência ser chamada de louca, aleijada, defeituosa ou deficiente?

b) Na prática do dia a dia, como nossa Igreja tem tratado as pessoas portadoras de deficiência? Há pessoas portadoras de deficiência em nossa igreja local? Elas se sentem acolhidas, entrosadas e participantes ativas da igreja?


4 - PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA SÃO PESSOAS 

Os portadores de deficiência física, motora, mental ou múltipla (portadoras de duas ou mais deficiências) têm sido um grupo de pessoas que a sociedade teimava em não enxergar, mantendo-as devidamente “guardadas” (protegidas e escondidas) em casa. Hoje, graças a Deus, essa história está mudando: os portadores de deficiência estão se organizando para exigir cidadania, que começa pelos direitos constitucionais básicos de qualquer brasileiro: educação, saúde, trabalho, lazer e o direito à mobilidade, ou seja, que ruas, calçadas, elevadores, banheiros, transporte coletivo, táxi, escolas, acesso a prédios, etc, sejam adequados a eles. Muito particularmente aos portadores de deficiência física. (2)

Há também uma sensibilização de organizações e da sociedade em favor dos portadores de deficiência, afinal com o número significante de portadores de deficiência em nosso país, naturalmente somos família, parentes e amigos de algum deles. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima a existência do seguinte quadro no Brasil: 5% da população são portadores de deficiência mental; 2% são portadores de deficiência física; 2% são portadores de deficiência auditiva; 1% são portadores de deficiência visual; e 1% são portadores de deficiência múltipla.
Além do mais, o país está descobrindo que as pessoas portadoras de deficiência são consumidoras como as demais e o mercado está atrás desse grupo especial de consumidores, adequando-se às necessidades especiais que eles têm. O país está descobrindo que sai mais barato aos “cofres públicos” inserir com leis e incentivos fiscais os portadores de deficiência do que sustentá-los com pensões da previdência social.
Ou seja, estamos descobrindo que os portadores de deficiência, antes de serem deficientes, são pessoas, com sonhos e medos, qualidades e pecados, e igualmente vocacionadas para a vida em sociedade e para a salvação em Jesus Cristo.

5 - DEUS QUER QUE TODOS SEJAM SALVOS

O Evangelho não conhece fronteiras. Saiu da Palestina e do judaísmo para alcançar os samaritanos e os gentios, incluindo sucessiva e crescentemente mulheres, crianças, os escravos, os pobres, negros, índios e os povos dos "confins da terra".

Mas um grupo em especial não recebeu e nem tem recebido a atenção necessária por parte da Igreja: os portadores de deficiência. Ainda são poucas as igrejas que têm se despertado para acolher, evangelizar, ensinar e tornar as pessoas portadoras de deficiência participantes ativas dos cultos, das classes da Escola Dominical, dos ministérios e outras programações. Diante da história de descaso com os portadores de deficiência e dos muitos desafios missionários, poucas igrejas se deram conta da necessidade de facilitar o acesso de pessoas cadeirantes (que se locomovem em cadeiras de roda). A Igreja Metodista de Vila Isabel cujo acesso ao templo era feito por escadas, construiu uma rampa. A Igreja Metodista do Jardim Botânico, cujo templo fica no segundo andar, instalou um elevador. A Igreja Metodista de Irajá tem o seu culto “traduzido” em LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais) para atender às pessoas surdas. Certamente há outras igrejas alargando o seu horizonte, mas ainda são bem poucas.
Deus quer que essas pessoas sejam alcançadas pelo Evangelho, que sejam salvas e batizadas, que façam parte da família da fé e sejam capacitadas a serem testemunhas do amor de Deus. Mas como crerão se não conseguirmos lhes transmitir o Evangelho? Como farão parte da família se os acessos ao nosso lugar de culto e reunião lhes impede de entrar? Como permanecerão na igreja se não temos nos educado para acolhê-las, integrá-las e torná-las parte ativa e produtiva da comunidade de fé? A nossa “casa” (nosso espaço físico, nosso grupo) deve estar adequada às necessidades especiais dos portadores de deficiência para que eles se sintam bem, para que eles se sintam parte do povo de Deus.
Ir missionariamente ao encontro das pessoas portadoras de deficiência física, evangelizá-las e adequar nossas instalações físicas e programas para atendê-las e discipulá-las não é um favor para atender a um suposto "modismo" da inclusão social e nem uma concessão pura e simplesmente a um grupo que exige atenção especial da igreja. Atender carinhosa, solidariamente, criteriosa e estruturalmente aos portadores de deficiência é missão. Jesus veio para salvar a todas as pessoas, inclusive as portadoras de deficiência.
Devemos começar imediatamente a nos preparar para evangelizar, acolher e discipular as pessoas portadoras de deficiência. Mesmo que em nossa Igreja não exista nenhuma pessoa portadora de deficiência, temos de sinalizar para a comunidade externa (para o bairro, para o mundo!) que essas pessoas são bem-vindas em nossa Igreja.
Ao construir, planejemos os acessos para todos. Inclusive salas de Escola Dominical no térreo ou elevadores e rampas para as salas noutros pavimentos. As pessoas portadoras de deficiência não podem ir aonde não conseguem entrar, não conseguem permanecer num lugar se não são percebidas e incluídas no grupo e na programação. Imaginemos uma pessoa surda participando de um de nossos cultos sem que haja o cuidado da igreja para ela possa perceber o que se passa e o que é cantado e pregado. Imaginemos uma pessoa cadeirante em nossa igreja que tenha necessidade de usar o banheiro. Se não houver instalações físicas adequadas e a atenção amorosa e solidária da igreja, melhor pra ela ficar em casa. Já é um desafio chegar à Igreja (sobretudo se tiver de pegar transporte público!), imagine chegar lá e não valer a pena, não ouvir, nem ver, nem locomover-se até salas ou outras dependências, nem aprender nada. É ultrajante!!!
Se em nossa Igreja houver uma ou duas pessoas portadoras de deficiência, vamos nos aproximar dela(s) e buscar atendê-la(s) para que ela(s) se sinta(m) não como “um peixe fora d´água”, mas como um irmão ou irmã, parte do corpo que é enxergado, cuidado, incluído, alimentado e capacitado para ser discípulo(a) de Jesus. Se nos abrirmos para fazer missão junto às pessoas portadoras de deficiência e lado a lado com elas, uma pessoa portadora de deficiência bem atendida contará para outras, e, o Senhor nos abençoará acrescentando a nós os que vão sendo salvos. Precisamos deixar que o Espírito Santo tire as escamas de nossos olhos que nos impedem de enxergarmos as pessoas portadoras de deficiência.
Devemos nos lembrar que o Plano para Vida e Missão da Igreja nos afirma que “a evangelização, como parte da Missão, é encarnar o amor divino nas formas mais diversas da realidade humana, para que Jesus Cristo seja confessado como Senhor, Salvador, Libertador e Reconciliador. A evangelização sinaliza e comunica o amor de Deus na vida humana e na sociedade pela adoração, proclamação, testemunho e serviço”. Ou seja, devemos falar do grande amor de Deus às pessoas portadoras de deficiência, e se necessário, usar palavras. As pessoas, de fato, só conhecem a Deus através do amor. Por isso o serviço de inclusão e promoção das pessoas portadoras de deficiência é um serviço maravilhoso de evangelização.
Deus quer que todos sejam salvos. A Igreja tem a competência de ir missionariamente ao encontro de todas as pessoas.

6 - Como Conhecer os Desafios das Pessoas Portadoras de Deficiência

Precisamos ler e pesquisar. Precisamos ver, mas sobretudo precisamos ouvir e aprender. Há muitos livros publicados e tem sido diversa a publicação de reportagens e entrevistas em jornais e revistas, bem como a exibição em programas na televisão (3).

Precisamos criar na igreja uma agenda para tratarmos desse assunto. Seja na Escola Dominical, nas reuniões de ministério, palestras pelos ministérios da Ação Social e Ação Docente e Evangelização, etc... Que a igreja seja um fórum abençoado para discutir e promover o acesso físico às facilidades públicas, direito à vida e à não discriminação das pessoas com deficiência, liberdade de ação, respeito às pessoas portadoras de deficiência, igualdade dos direitos, respeito, cidadania, vida independente e inclusão na comunidade.
Visitar e conversar com pessoas portadoras de deficiência e suas famílias também é muito importante. Uma boa e franca conversa tem muito a nos ensinar como igreja e como cristãos. É boa a visita a projetos de igrejas ou Ongs que promovem a inclusão das pessoas portadoras de deficiência. Quando a gente aprende a gente se torna uma pessoa de visão mais ampla. Uma pessoa melhor, mais esclarecida e mais solidária.

Tânia Maria Silva de Almeida, coordenadora da Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, numa entrevista respondeu a algumas perguntas, das quais destacamos duas:

“O que as famílias podem fazer para ensinar a sociedade a se livrar do preconceito contra a pessoa portadora de deficiência?Tânia – Como formadora do cidadão, a família é o núcleo da sociedade. Em nosso país é o núcleo da sociedade. Em nosso país as famílias de portadores de deficiência se organizaram em cerca de 2.500 associações, referentes às diversas áreas da deficiência, que desenvolvem ações que vão desde o atendimento direto até a conscientização da comunidade sobre as potencialidades das pessoas portadoras de deficiência. Com os avanços das políticas públicas, este segmento social tem se inserido, progressivamente, nos programas comuns aos demais cidadãos, principalmente nas escolas. E esperamos que o preconceito existente, provavelmente por desconhecimento das pessoas que não convivem com esse grupo social, se reduza, permitindo que a inclusão das pessoas portadoras de deficiência na sociedade se torne uma realidade.

O que a sociedade civil pode fazer para ajudar essas famílias?
Tânia – Portar uma deficiência independe de raça, sexo, nível sócio-econômico e cultural. Uma vez instalada no indivíduo, ela passa a fazer parte da sua condição. A sociedade civil pode incluir os portadores de deficiência em seus programas, apoiar os serviços já existentes, promover ações de voluntariado, campanhas, etc. E principalmente deve amadurecer e derrotar o preconceito”.



7 - COMO LIDAR COM AS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA

• Não se acanhe em fazer perguntas relacionadas às deficiências, pois a maioria das Portadoras de Deficiências não se incomodam em respondê-las; porém, se você não for muito próximo da pessoa, evite fazer perguntas íntimas;

• Dirija-se sempre ao portador de deficiência, mesmo que ao seu lado esteja um intérprete;
• Ofereça apoio sempre que verificar alguma necessidade, aguarde para que seja aceito e pergunte como você poderá ajudar;
• Não se ofenda com a recusa do auxílio oferecido. Nem sempre ele é necessário;
• Se um portador de deficiência lhe pedir algum tipo de ajuda e você não se sentir preparado para tal, sinta-se à vontade para recusar. Nessa situação, procure alguém que possa fazê-lo.


8 - PARA PENSAR

O que podemos fazer concretamente para que a nossa Igreja seja um lugar acolhedor para as pessoas portadoras de deficiência?

Vamos nos dividir em grupos. Cada grupo pode propor um ou dois serviços de acolhimento e evangelização das pessoas portadoras de deficiência. Vamos depois conversar com o pastor(a) da nossa Igreja para viabilizar as melhores propostas.


9 - CONCLUINDO

A evangelização e os serviços de ação social, sociabilidade, educação cristã e discipulado, entre outros, devem ser planejados e executados de modo que estejam interessados, atentos e preparados para atender também as pessoas portadoras de deficiência física.

Mas se em último caso, a igreja não conseguir criar mecanismos e serviços para a participação plena das pessoas portadoras de deficiência, que ao menos elas se sintam muito amadas pelo povo da igreja.
Queremos que a Igreja seja o melhor lugar e a melhor companhia para as pessoas portadoras de deficiência. A Igreja tem de ser um pedacinho do Céu na terra.
Devemos nos lembrar que, independente das necessidades — especiais ou não — cada pessoa é um ser humano, com virtudes, qualidades, pecados, contradições, com sua própria personalidade e jeito de ser, com sonhos, anseios, desejos. São também filhos e filhas de Deus, aos quais Deus quer salvar.
E, como acontece com qualquer pessoa, todos nós gostamos de respeito, educação e cortesia. Assim sendo, seja com quem for que estivermos tratando, independente da condição física, classe social ou qualquer outro fator, há uma regra de ouro que faz a nossa vida e a vida dos demais sempre melhor. Esta regra é: “Sê tu uma bênção!” (Gn 12:2).

10 - UMA PALAVRA AOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA:

Deus amou também os portadores de deficiência de tal maneira que deu seu filho Unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Confie em Deus. Busque força, capacitação e superação em Deus. Todas os mandamentos de Deus são também para as pessoas portadoras de deficiência. Todas as promessas de Deus são também para as pessoas portadoras de deficiência física, inclusive as bem-aventuras de Mt 5:1-12, a promessa do Espírito Santo de At 1:8; da salvação pela graça de Deus de Ef 2:8-9 e também a herança do Reino: "Vinde benditos do meu pai para o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (cf. Mt 25:34).
Por isso, seja você também sujeito da sua própria história. Como disse Eleonor Roosevelt, "ninguém pode diminuir você sem o seu consentimento".


11 - CITAÇÕES E BIBLIOGRAFIA

(1) Embora não haja consenso, a terminologia mais adequada para nos referirmos a pessoas com algum tipo de deficiência é “pessoa portadora de deficiência”. A deficiência pode ser física, motora, sensorial ou mental ou múltipla, envolvendo mais de um tipo de deficiência. As pessoas portadoras de deficiência não gostam de ser tratadas por algumas expressões antigas que denotam preconceito e marginalização. Entre elas temos: aleijadas, defeituosas, deficientes (as pessoas embora sejam portadoras de deficiência, elas não são deficientes!!!), malucas, doidas, “mongolóides” (o correto é portadoras da Síndrome de Down), leprosas (o correto é portadoras de hanseníase!), etc... 
Muitas pessoas não gostam de ser tratadas e nem de tratar as pessoas portadoras de deficiência como “pessoas portadoras de necessidades especiais”, pois argumentam que qualquer pessoa pode ter necessidades especiais. A expressão, portanto, é inadequada. Ainda falando sobre expressões, nem toda pessoa portadora de deficiência visual é cega e nem toda pessoa portadora de deficiência auditiva é surda. As expressões cega e surda podem ser usadas.

(2) MULLER, Iara - Encarando a deficiência - Editora Sinodal - 1989 - pág. 49.
(3) Há ainda alguns sites (endereços eletrônicos) que podem ser acessados na internet, entre os quais:
- http://www.cedipod.org.br - Centro de Documentação e Informação do Portador de Deficiência
- http://www.entreamigos.com.br - Entre Amigos - Rede de Informações sobre Deficiência 
- http://www.pgt.mpt.gov.br/deficiente/legislacao/index.html - Página do Ministério do trabalho com a Legislação relacionada a pessoa portadora de deficiência
- http://www.mpdft.gov.br/Orgaos/PromoJ/prodide/prodide.htm - Promotoria de Justiça de Defesa do Idoso e do Portador de Deficiência.




LIÇÃO DO PROFESSOR


1 - Objetivo da lição

Refletir sobre a situação da pessoa portadora de deficiência física e refletir sobre serviços que podemos desenvolver em nossa igreja para acolher, incluir, evangelizar e discipular particularmente as pessoas portadoras de deficiência física ou motora.


2 - Delimitando o tema da aula de hoje

A situação das pessoas portadoras de deficiência e os desafios da nossa sociedade e da Igreja para a inclusão delas na vida quotidiana são amplos e não há como ser tratados e discutidos numa lição e num único dia. Assim sendo, vamos nos limitar a falar genericamente desses desafios, pensando basicamente a inclusão das pessoas portadoras de deficiência na Igreja local. Estaremos também priorizando a inclusão das pessoas portadoras de deficiência física e motora, pois os desafios da inclusão das pessoas com eficiência sensorial ou mental também é muito amplo e impossível de ser tratado também nessa lição.

Também não vamos refletir teológica e pastoralmente sobre a deficiência.

3 - O texto Bíblico

O texto bíblico está minimamente apresentado na lição do aluno.

Se houver condições e necessidade, ele pode ser relacionado também com a parábola do Bom Samaritano (Lc 10:25-37). O Bom Samaritano é o que desobedece as leis civis e religiosas de sua época para que o amor e a solidariedade fossem vividas em relação à pessoa agredida e abandonada naquele caminho de Jerusalém para Jericó. Mais importante que a lei, a tradição e os costumes é o amor que inclui, respeita, solidariza e cuida do outro. Particularmente dos “pequeninos” de Deus (Mc 25:34-40). Contra o amor e os frutos do Espírito não há lei (Gl 5:23). Aliás, o cumprimento da lei (de Deus) é o amor (Rm 13:10).

4 - Roteiro para a aula de hoje

a) Ore com o grupo.
b) Exponha ao grupo o objetivo da lição e as delimitações do assunto, ou seja, por falta de condições de tempo e espaço vamos estar falando genericamente apenas das pessoas portadoras de deficiência física e motora.
c) Leia o texto Bíblico e converse com o grupo sobre ele. Dê as ênfases apresentadas na lição do aluno.
d) Converse com o grupo sobre as duas primeiras perguntas (item 2 da lição do aluno).

OBS: Embora não haja consenso, a terminologia mais adequada para nos referirmos a pessoas com algum tipo de deficiência é “pessoa portadora de deficiência”. A deficiência pode ser física, motora, sensocial ou mental ou múltipla, envolvendo mais de um tipo de deficiência. As pessoas portadoras de deficiência não gostam de ser tratadas por algumas expressões antigas que denotam preconceito e marginalização. Entre elas temos: aleijadas, defeituosas, deficientes (as pessoas embora sejam portadoras de deficiência, elas não são deficientes!!!), malucas, doidas, “mongolóides” (o correto é portadoras da Síndrome de Down), leprosas (o correto é portadoras de hanseníase!), etc...
Muitas pessoas não gostam de ser tratadas e nem de tratar as pessoas portadoras de deficiência como “pessoas portadoras de necessidades especiais”, pois argumentam que qualquer pessoa pode ter necessidades especiais. A expressão, portanto, é inadequada. Ainda falando sobre expressões, nem toda pessoa portadora de deficiência visual é cega e nem toda pessoa portadora de deficiência auditiva é surda. As expressões cega e surda podem ser usadas.
e) Peça a um aluno que exponha resumidamente o item 3 da lição do aluno - “Pessoas Portadoras de Deficiência São Pessoas”.
f) Peça a um segundo aluno que exponha o item 4 da lição do aluno - “Deus quer que todos sejam salvos”.
Fale você, professor, sobre o item 5 da lição - “Como Conhecer os Desafios das Pessoas Portadoras de Deficiência”.
g) Peça a 5 alunos diferentes para expor os 5 itens do “Como Lidar Com As Pessoas Portadoras De Deficiência”. Ao final, pergunte ao grupo, se ele teria mais alguma sugestão.
h) Para preparar a tarefa final, a classe pode ser dividida de 3 a 6 grupos. O trabalho de grupo pode demorar uns 10 minutos. Depois os grupos relatam resumidamente o que propuseram.
i) Faça o fechamento da lição (veja o item 7 - Concluindo).
j) Ore com o grupo, pedindo para que as pessoas portadoras de deficiência nunca mais sejam invisíveis aos nossos olhos, amor e cuidados.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

MARAVILHADOS COM SUA INCLUSÃO



"Neste ponto, chegaram os seus discípulos e se admiraram de que estivessefalando com uma mulher; todavia, nenhum lhe disse: Que perguntas? Ou: Por que falas com ela?"  (João 4.27)

Rodolfo Garcia Montosa

Segundo o dicionário, discriminar é colocar algo ou alguém de parte, tratar de modo desigual ou injusto com base em preconceitos de alguma ordem, afastar-se por intolerância racial, religiosa, classista ou de outra natureza, fazer acepção de pessoas, destratar, ignorar, repulsar o semelhante, sob qualquer motivo ou motivação. Feio, não é?
Pois bem, era comum aos judeus discriminarem mulheres, crianças, deficientes, enfermos, estrangeiros - especialmente samaritanos - ímpios e pecadores de maneira geral. Mas Jesus era mesmo alguém muito avante de seu tempo. Aliás, muito avante do nosso tempo. Seus discípulos ficaram tão impactados, que sequer tiveram coragem de perguntar qualquer coisa quando o viram conversando com aquela mulher samaritana. Para Jesus não havia inferioridade, nem rivalidade. Por isso, os discípulos ficavam maravilhados com a maneira como Jesus incluía todos e todas em seus diálogos, em sua agenda, em seu coração.
Jesus não se relacionava com pessoas motivado pela cor da pele, pelo tamanho da conta bancária, pelos títulos pendurados na parede, pela beleza ou qualquer outra característica desse tipo. Seu movimento foi e continua sendo na direção de quem tem sede. Senão, vejamos.
Tudo começou com a sede física expressa por meio do simples pedido de água

Jesus estava com sede. Ao mesmo tempo que sua sede era real, tornou-se pretexto para iniciar seu diálogo. Sua capacidade de partir dos elementos simples e cotidianos da vida é sempre surpreendente. O ordinário, em suas mãos, torna-se extraordinário. Sede, fome, saúde, trabalho, sustento, natureza, e tantos outros elementos concretos da nossa vida e contexto tornam-se meios para nos relacionarmos com Jesus. Jesus se achega por meio de uma singela necessidade do dia a dia, mesmo que, no primeiro momento, não seja percebido.

Na sequência, a conversa aponta para uma sede na alma. 

Se Jesus tinha sede, maior, contudo, era a sede daquela mulher samaritana expressa nos seus múltiplos relacionamentos conjugais. Como não poderia ser diferente, Jesus, cheio do Espírito Santo, logo discerniu que nem os cinco maridos, nem o atual companheiro poderiam preencher suas expectativas, desejos e apetites profundos. Estava fadada à vida insaciável que não é suprida por cônjuges, filhos, títulos, dinheiro, sexo, drogas, posição, poder, fama, status e tantas outras ilusões. Mesmo aproximando-se de maneira inclusiva, Jesus revela a verdade de sua vida sedenta e passa a ser percebido como profeta de Deus.

Por fim, a conversa encaminha-se para a verdadeira sede espiritual. 

Mais que na alma, a mulher samaritana tinha sede de Deus. Por isso, apresentou seu dilema: onde encontro Deus? Qual o lugar para adorá-lo? Aqui neste monte ou em Jerusalém? Ora, percebendo a sinceridade de seu coração, Jesus lhe revela que Deus é espírito e que ele é o Messias que havia de vir. Ao longo da conversa, os olhos espirituais da samaritana foram abertos. Não era simplesmente um profeta, mas o próprio Ungido de Deus com quem estava conversando. Não se conteve e chamou toda a sua comunidade para conhecer a Cristo. O olhar do Senhor estava focado no coração quebrantado, humilde e sincero daquele povo. Foi tão atraído pela sede espiritual que ficou ali dois dias inteiros e intensos com todos (Jo 4.43).

Da mesma maneira como fez com a mulher samaritana, o Senhor inclui em sua agenda nos dias de hoje todo aquele que tem verdadeira sede, mesmo que esteja perdido em tantas tentativas de saciar-se. Fazendo assim nos ensina a proceder da mesma maneira com outros. Somente no Senhor podemos ter nossa sede satisfeita e nossos corações fartos. 
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