quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A escravidão não acabou


Trabalho escravo no Brasil entre 2003 e 2016, em porcentagem

349 empregadores ainda submetem os contratados a condições degradantes e subumanas
Com um adiantamento que podia chegar a cerca de 60 reais, dezenas de trabalhadores rurais foram seduzidos na década de 1990 para capinar juquira na Fazenda Brasil Verde, no Sul do Pará. Essa espécie de mato, conhecida por incomodar fazendeiros na criação de gado, foi a principal razão para um dos casos mais simbólicos de flagrante de trabalho escravo na história do País. No último mês de dezembro, enfim, a consequência: o Brasil foi a primeira nação a ser condenada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por não prevenir a prática de trabalho escravo moderno e de tráfico de pessoas.
Sobraram evidências para a responsabilização do Estado brasileiro no caso. Além de serem ameaçados caso abandonassem o emprego, os trabalhadores resgatados nesse local dormiam em barracões cobertos de plásticos e palha, sem proteção lateral, o que permitia a entrada de chuva e ventos durante a noite. Também não havia cama, o “alojamento” era de redes.
E a água, imprópria para consumo, assim como a alimentação oferecida. Isso não impedia que os trabalhadores rurais tivessem essas “despesas” descontadas de seus vencimentos, que nunca chegavam a ser pagos de fato. Ao todo, somente nessa fazenda, mais de 300 trabalhadores foram resgatados, entre 1989 e 2002.
Foi para combater situações como essa que o Brasil começou a publicar, em 2003, o “Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à de escravo”, mais conhecida como a Lista Suja do Trabalho Escravo, que reúne nomes de empresas ou pessoas que colocaram trabalhadores em situações degradantes ou forçadas de trabalho. Essa importante ferramenta, reconhecida internacionalmente, não foi publicada, no entanto, pelo governo Michel Temer no último ano, o que pode sinalizar um retrocesso maior a caminho.
A gestão peemedebista aproveitou-se de uma decisão judicial já revista para, simplesmente, ignorar a existência desse cadastro. Isso porque em dezembro de 2014, durante o recesso de fim de ano, o ministro Ricardo Lewandowski, então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu liminarmente e de forma monocrática o pedido da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) para suspender a publicação. A Abrainc representa as principais construtoras do País e está sob comando, atualmente, da MRV Engenharia.
A medida cautelar foi cassada, entretanto, pela ministra Cármen Lúcia, em maio de 2016 e o Ministério do Trabalho foi liberado para voltar a divulgar o cadastro há mais de oito meses. Mas nenhuma lista foi oficialmente divulgada até agora. A decisão do Supremo levou em conta uma nova portaria interministerial, publicada no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff, para driblar o impasse.
Na prática, a portaria flexibiliza as regras de manutenção do cadastro de empregados. Por essa mudança, as empresas flagradas com trabalhadores em condições análogas à escravidão passam a figurar em uma nova lista se firmarem um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou acordo judicial com a União. Isso significa que, desde então, o governo poderia publicar duas listas: uma com empresas que se comprometeram a solucionar o problema e outra com as que não mostraram intenção de tomar providência alguma.
Ainda assim, desde que assumiu, o governo Michel Temer ignora essa possibilidade. A omissão deliberada fez com que o Ministério Público do Trabalho ajuizasse uma ação civil pública para obrigar o governo federal a voltar a atualizar o cadastro de empregadores envolvidos com escravidão. No dia 19 de dezembro, o juiz Rubens Curado Silveira, da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, reconheceu a importância do tema e determinou que uma nova lista fosse publicada em até 30 dias, a partir do momento em que o governo fosse notificado da decisão.
Na decisão, Silveira lembrou justamente o caso da Fazenda Brasil Verde. “Esse foi o primeiro caso decidido pela CIDH [Corte Interamericana] sobre escravidão e tráfico de pessoas, o que acabou por colocar a República Federativa do Brasil no 'banco dos réus' do plano internacional", observa o magistrado.
"Nesse cenário, revela-se ainda mais preocupante a omissão atacada, pois sinaliza um retrocesso injustificado no trato do tema em uma quadra da história em que o Estado brasileiro deveria, em resposta à condenação que lhe foi imposta, redobrar os esforços em busca da extinção definitiva do trabalho escravo em seu território”.
Para Tiago Muniz Cavalcanti, procurador do Trabalho e um dos autores da ação, essa postura marca o retrocesso de políticas públicas até então elogiadas por órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). “A publicação da Lista Suja é uma política de Estado e não uma política de governo. O combate ao trabalho escravo tem de continuar”, critica. “Essa postura omissiva vem desde maio para cá e não existe justificativa para isso.”
Além de uma ferramenta de defesa dos direitos humanos, a Lista Suja também era uma referência para o mercado e bancos na hora de conceder financiamentos ou fazer negócios com determinadas empresas. Mesmo instituições privadas utilizavam o cadastro feito pelo Ministério do Trabalho antes de concluir operações de crédito para companhias. A decisão do governo federal de impedir o acesso a essa lista coloca todas as empresas no mesmo patamar.
“Para além dos direitos humanos e da questão de acesso à informação e liberdade de imprensa há a questão muito clara de mercado (para a publicação da lista). É por isso que as empresas sérias querem essa informação, é uma questão de risco. O mercado brasileiro aprendeu que só tem a ganhar ao gerenciar esse risco, não é fazer com que as empresas percam negócios”, alerta o jornalista e presidente da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamato.
Atualmente, é a ONG presidida por ele que tem conseguido obter e divulgar a Lista Suja com a ajuda da Lei de Acesso à Informação. A última foi obtida em junho do ano passado e apresenta 349 nomes de empregadores.
Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a postura do governo federal não encontra respaldo nem mesmo entre a classe empresarial do País. “Existe um grupo majoritário que não quer ser confundido com os escravagistas, porque isso pode fechar o acesso de um produto a determinado país vizinho ou cadeia produtiva no exterior”, enfatiza o Frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha contra o Trabalho Escravo da CPT.
As vozes pela atualização da lista não vêm apenas de organizações de combate ao trabalho escravo e do Ministério Público, a ONU também fez a mesma recomendação ao Brasil. No ano passado, o órgão lançou um artigo técnico de posicionamento sobre o tema, em antecipação às comemorações do Dia do Trabalho. Para evitar retrocessos nas conquistas alcançadas pelo Brasil, o documento da ONU faz uma série de recomendações, entre elas a reativação da chamada "Lista Suja" e a manutenção do conceito atual de “trabalho escravo”, previsto no Código Penal Brasileiro.
"Nota-se uma crescente tendência de retrocesso [no Brasil] em relação a outras iniciativas fundamentais ao enfrentamento do trabalho escravo, como por exemplo, o Cadastro de Empregadores flagrados explorando mão de obra escrava, comumente reconhecido por 'Lista Suja', que foi suspenso no final de 2014", registra a organização.
Nada disso comove o ministro Ronaldo Nogueira, do Trabalho, mal assumiu a pasta, avisou a interlocutores que não iria publicar a lista. A secretária Especial dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania, Flávia Piovesan, que tem capitaneado todas as ações sobre o assunto, em novembro anunciou a coordenação de um Pacto Federativo para Erradicação do Trabalho Escravo com o estado do Pará, a unidade da Federação com o maior número de casos. Nogueira enviou seu secretário-executivo, Antonio Correia de Almeida, para a cerimônia, mas a assessoria de comunicação do ministério mal registrou o fato em seu site.
Não está claro se a postura decorre de uma decisão particular do ministro, ou se há algum tipo de orientação vinda do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. Em dezembro, uma operação das polícias Militar, Civil e Ambiental de Mato Grosso, que investiga desmatamento ilegal, encontrou em péssimas condições as acomodações de empregados em uma fazenda de Padilha, em Mato Grosso, e encaminhou as imagens ao Ministério Público do Trabalho, diante da suspeita de trabalho análogo à escravidão.
Pressões de empresas do setor da construção civil, de parlamentares ou até mesmo de ministros por conta da repercussão negativa da Lista Suja do Trabalho Escravo não são novidades no País. Esse tipo de relato também era comum nas gestões petistas e encontrava conivência, inclusive, entre parlamentares do PT e integrantes do governo Dilma. No entanto, a postura da gestão Temer, mesmo com vozes dissonantes como a de Flávia Piovesan, pode sinalizar mudanças mais preocupantes. 
Há algum tempo que integrantes da bancada ruralista tentam abrandar no Congresso a definição de trabalho escravo, com o objetivo de impedir que flagrantes de trabalho em condições desumanas seja enquadrado nessa prática. Um dos patrocinadores desse ponto de vista é justamente o líder do governo no Congresso, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que foi ministro de Temer. 
Em 2014, quando os congressistas discutiam a PEC do Trabalho Escravo, Jucá tentou emplacar sua tese sob o argumento de que os termos utilizados para a identificação de trabalho escravo eram “genéricos”. “O que é sumamente revoltante para alguns pode não o ser para outros”, amenizava no texto de seu projeto. “Principalmente porque as condições de trabalho em geral não são lá essa maravilha nos campos distantes, nas minas, nas florestas e nas fábricas de fundo de quintal.”


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A Igreja e as pessoas portadoras de deficiência - um estudo para a Escola Dominical



Pr. Ronan Boechat de Amorim

1 - LEITURAS BÍBLICAS DA SEMANA

2ª-feira - 1Tm 2:1-7 e Mc 16:15-16 - A vontade de Deus é que todos sejam salvos
3ª-feira - At 10:1-22 - Um Deus que quebra barreiras e preconceitos
4ª-feira - At 10:23- 48 - Deus não faz acepção de pessoas, mas faz o bem
5ª-feira - 2 Sm 9:1-13 - O amor faz superar preconceitos e gera bondade
6ª-feira - João 9:1-12 - Para que se manifestem nele as obras de Deus
Sábado - Jó 1:13 a 2:13 - Deus é Senhor nas alegrias e nas tragédias.


2 - Quando o Amor é Maior Que o Preconceito

Em 2 Sm 9:1-13 há uma bela história de amor que vence o preconceito e as tradições e costumes que discriminam e excluem as pessoas. No texto, o rei Davi fica sabendo através de Ziba, um ex-servo do falecido Rei Saul, que um filho de Jônatas e neto de Saul estava vivo e vivia de favor na casa do rico proprietário Maquir. Mefibosete, devido a um acidente em sua infância (2Sm 4:4) tornara-se um portador de deficiência física em ambos os pés. Davi se lembra da promessa de bondade para com os descendentes de seu grande amigo Jônatas (1Sm 20:14-17) e manda buscar Mefibosete. Mefibosete compara-se a um cão morto, indigno da atenção e bondade de Davi, mas o rei Davi o coloca sob sua proteção e como parte de sua família, pois comia sempre à mesa do rei como um filho (2Sm 9:11 e 13). Davi restitui a Mefibosete todas as propriedades que haviam pertencido a Saul e ordena a Ziba que passe a trabalhar para Mefibosete, administrando as propriedades e os que trabalhavam nelas para que não falte o sustento e o conforto a Mefibosete e à sua família.

Numa época e num lugar em que a sociedade e a religião (inclusive o judaísmo) afirmavam que a pessoa portadora de deficiência era alguém que tinha uma maldição colocada por Deus, e que precisava viver isolada para não contaminar o povo de Deus, Davi prefere, por amor, ouvir a voz do seu coração para exercitar a bondade e a justiça. Podia acomodar-se aos valores e preconceitos de seu tempo e não fazer nada.
A deficiência não é da vontade de Deus, não é um castigo de Deus e não tem um sentido em si mesma. Se a deficiência tem algum sentido, é a sua superação. E a mais fantástica superação é quando as pessoas portadoras de deficiência são incluídas na vida social, tratadas com respeito e, como pessoas, sentindo-se vivas e companheiras e achando que isso é bom e vale a pena. Com e apesar das deficiências.
O amor sempre rompe barreiras. O amor sempre faz diferença.


3 - Pra início de conversa.

a) Há poder em nossas palavras, tanto para abençoar e apaziguar quando para ferir e criar ódio. Qual deve ser a sensação de uma pessoa portadora de deficiência ser chamada de louca, aleijada, defeituosa ou deficiente?

b) Na prática do dia a dia, como nossa Igreja tem tratado as pessoas portadoras de deficiência? Há pessoas portadoras de deficiência em nossa igreja local? Elas se sentem acolhidas, entrosadas e participantes ativas da igreja?


4 - PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA SÃO PESSOAS 

Os portadores de deficiência física, motora, mental ou múltipla (portadoras de duas ou mais deficiências) têm sido um grupo de pessoas que a sociedade teimava em não enxergar, mantendo-as devidamente “guardadas” (protegidas e escondidas) em casa. Hoje, graças a Deus, essa história está mudando: os portadores de deficiência estão se organizando para exigir cidadania, que começa pelos direitos constitucionais básicos de qualquer brasileiro: educação, saúde, trabalho, lazer e o direito à mobilidade, ou seja, que ruas, calçadas, elevadores, banheiros, transporte coletivo, táxi, escolas, acesso a prédios, etc, sejam adequados a eles. Muito particularmente aos portadores de deficiência física. (2)

Há também uma sensibilização de organizações e da sociedade em favor dos portadores de deficiência, afinal com o número significante de portadores de deficiência em nosso país, naturalmente somos família, parentes e amigos de algum deles. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima a existência do seguinte quadro no Brasil: 5% da população são portadores de deficiência mental; 2% são portadores de deficiência física; 2% são portadores de deficiência auditiva; 1% são portadores de deficiência visual; e 1% são portadores de deficiência múltipla.
Além do mais, o país está descobrindo que as pessoas portadoras de deficiência são consumidoras como as demais e o mercado está atrás desse grupo especial de consumidores, adequando-se às necessidades especiais que eles têm. O país está descobrindo que sai mais barato aos “cofres públicos” inserir com leis e incentivos fiscais os portadores de deficiência do que sustentá-los com pensões da previdência social.
Ou seja, estamos descobrindo que os portadores de deficiência, antes de serem deficientes, são pessoas, com sonhos e medos, qualidades e pecados, e igualmente vocacionadas para a vida em sociedade e para a salvação em Jesus Cristo.

5 - DEUS QUER QUE TODOS SEJAM SALVOS

O Evangelho não conhece fronteiras. Saiu da Palestina e do judaísmo para alcançar os samaritanos e os gentios, incluindo sucessiva e crescentemente mulheres, crianças, os escravos, os pobres, negros, índios e os povos dos "confins da terra".

Mas um grupo em especial não recebeu e nem tem recebido a atenção necessária por parte da Igreja: os portadores de deficiência. Ainda são poucas as igrejas que têm se despertado para acolher, evangelizar, ensinar e tornar as pessoas portadoras de deficiência participantes ativas dos cultos, das classes da Escola Dominical, dos ministérios e outras programações. Diante da história de descaso com os portadores de deficiência e dos muitos desafios missionários, poucas igrejas se deram conta da necessidade de facilitar o acesso de pessoas cadeirantes (que se locomovem em cadeiras de roda). A Igreja Metodista de Vila Isabel cujo acesso ao templo era feito por escadas, construiu uma rampa. A Igreja Metodista do Jardim Botânico, cujo templo fica no segundo andar, instalou um elevador. A Igreja Metodista de Irajá tem o seu culto “traduzido” em LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais) para atender às pessoas surdas. Certamente há outras igrejas alargando o seu horizonte, mas ainda são bem poucas.
Deus quer que essas pessoas sejam alcançadas pelo Evangelho, que sejam salvas e batizadas, que façam parte da família da fé e sejam capacitadas a serem testemunhas do amor de Deus. Mas como crerão se não conseguirmos lhes transmitir o Evangelho? Como farão parte da família se os acessos ao nosso lugar de culto e reunião lhes impede de entrar? Como permanecerão na igreja se não temos nos educado para acolhê-las, integrá-las e torná-las parte ativa e produtiva da comunidade de fé? A nossa “casa” (nosso espaço físico, nosso grupo) deve estar adequada às necessidades especiais dos portadores de deficiência para que eles se sintam bem, para que eles se sintam parte do povo de Deus.
Ir missionariamente ao encontro das pessoas portadoras de deficiência física, evangelizá-las e adequar nossas instalações físicas e programas para atendê-las e discipulá-las não é um favor para atender a um suposto "modismo" da inclusão social e nem uma concessão pura e simplesmente a um grupo que exige atenção especial da igreja. Atender carinhosa, solidariamente, criteriosa e estruturalmente aos portadores de deficiência é missão. Jesus veio para salvar a todas as pessoas, inclusive as portadoras de deficiência.
Devemos começar imediatamente a nos preparar para evangelizar, acolher e discipular as pessoas portadoras de deficiência. Mesmo que em nossa Igreja não exista nenhuma pessoa portadora de deficiência, temos de sinalizar para a comunidade externa (para o bairro, para o mundo!) que essas pessoas são bem-vindas em nossa Igreja.
Ao construir, planejemos os acessos para todos. Inclusive salas de Escola Dominical no térreo ou elevadores e rampas para as salas noutros pavimentos. As pessoas portadoras de deficiência não podem ir aonde não conseguem entrar, não conseguem permanecer num lugar se não são percebidas e incluídas no grupo e na programação. Imaginemos uma pessoa surda participando de um de nossos cultos sem que haja o cuidado da igreja para ela possa perceber o que se passa e o que é cantado e pregado. Imaginemos uma pessoa cadeirante em nossa igreja que tenha necessidade de usar o banheiro. Se não houver instalações físicas adequadas e a atenção amorosa e solidária da igreja, melhor pra ela ficar em casa. Já é um desafio chegar à Igreja (sobretudo se tiver de pegar transporte público!), imagine chegar lá e não valer a pena, não ouvir, nem ver, nem locomover-se até salas ou outras dependências, nem aprender nada. É ultrajante!!!
Se em nossa Igreja houver uma ou duas pessoas portadoras de deficiência, vamos nos aproximar dela(s) e buscar atendê-la(s) para que ela(s) se sinta(m) não como “um peixe fora d´água”, mas como um irmão ou irmã, parte do corpo que é enxergado, cuidado, incluído, alimentado e capacitado para ser discípulo(a) de Jesus. Se nos abrirmos para fazer missão junto às pessoas portadoras de deficiência e lado a lado com elas, uma pessoa portadora de deficiência bem atendida contará para outras, e, o Senhor nos abençoará acrescentando a nós os que vão sendo salvos. Precisamos deixar que o Espírito Santo tire as escamas de nossos olhos que nos impedem de enxergarmos as pessoas portadoras de deficiência.
Devemos nos lembrar que o Plano para Vida e Missão da Igreja nos afirma que “a evangelização, como parte da Missão, é encarnar o amor divino nas formas mais diversas da realidade humana, para que Jesus Cristo seja confessado como Senhor, Salvador, Libertador e Reconciliador. A evangelização sinaliza e comunica o amor de Deus na vida humana e na sociedade pela adoração, proclamação, testemunho e serviço”. Ou seja, devemos falar do grande amor de Deus às pessoas portadoras de deficiência, e se necessário, usar palavras. As pessoas, de fato, só conhecem a Deus através do amor. Por isso o serviço de inclusão e promoção das pessoas portadoras de deficiência é um serviço maravilhoso de evangelização.
Deus quer que todos sejam salvos. A Igreja tem a competência de ir missionariamente ao encontro de todas as pessoas.

6 - Como Conhecer os Desafios das Pessoas Portadoras de Deficiência

Precisamos ler e pesquisar. Precisamos ver, mas sobretudo precisamos ouvir e aprender. Há muitos livros publicados e tem sido diversa a publicação de reportagens e entrevistas em jornais e revistas, bem como a exibição em programas na televisão (3).

Precisamos criar na igreja uma agenda para tratarmos desse assunto. Seja na Escola Dominical, nas reuniões de ministério, palestras pelos ministérios da Ação Social e Ação Docente e Evangelização, etc... Que a igreja seja um fórum abençoado para discutir e promover o acesso físico às facilidades públicas, direito à vida e à não discriminação das pessoas com deficiência, liberdade de ação, respeito às pessoas portadoras de deficiência, igualdade dos direitos, respeito, cidadania, vida independente e inclusão na comunidade.
Visitar e conversar com pessoas portadoras de deficiência e suas famílias também é muito importante. Uma boa e franca conversa tem muito a nos ensinar como igreja e como cristãos. É boa a visita a projetos de igrejas ou Ongs que promovem a inclusão das pessoas portadoras de deficiência. Quando a gente aprende a gente se torna uma pessoa de visão mais ampla. Uma pessoa melhor, mais esclarecida e mais solidária.

Tânia Maria Silva de Almeida, coordenadora da Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, numa entrevista respondeu a algumas perguntas, das quais destacamos duas:

“O que as famílias podem fazer para ensinar a sociedade a se livrar do preconceito contra a pessoa portadora de deficiência?Tânia – Como formadora do cidadão, a família é o núcleo da sociedade. Em nosso país é o núcleo da sociedade. Em nosso país as famílias de portadores de deficiência se organizaram em cerca de 2.500 associações, referentes às diversas áreas da deficiência, que desenvolvem ações que vão desde o atendimento direto até a conscientização da comunidade sobre as potencialidades das pessoas portadoras de deficiência. Com os avanços das políticas públicas, este segmento social tem se inserido, progressivamente, nos programas comuns aos demais cidadãos, principalmente nas escolas. E esperamos que o preconceito existente, provavelmente por desconhecimento das pessoas que não convivem com esse grupo social, se reduza, permitindo que a inclusão das pessoas portadoras de deficiência na sociedade se torne uma realidade.

O que a sociedade civil pode fazer para ajudar essas famílias?
Tânia – Portar uma deficiência independe de raça, sexo, nível sócio-econômico e cultural. Uma vez instalada no indivíduo, ela passa a fazer parte da sua condição. A sociedade civil pode incluir os portadores de deficiência em seus programas, apoiar os serviços já existentes, promover ações de voluntariado, campanhas, etc. E principalmente deve amadurecer e derrotar o preconceito”.



7 - COMO LIDAR COM AS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA

• Não se acanhe em fazer perguntas relacionadas às deficiências, pois a maioria das Portadoras de Deficiências não se incomodam em respondê-las; porém, se você não for muito próximo da pessoa, evite fazer perguntas íntimas;

• Dirija-se sempre ao portador de deficiência, mesmo que ao seu lado esteja um intérprete;
• Ofereça apoio sempre que verificar alguma necessidade, aguarde para que seja aceito e pergunte como você poderá ajudar;
• Não se ofenda com a recusa do auxílio oferecido. Nem sempre ele é necessário;
• Se um portador de deficiência lhe pedir algum tipo de ajuda e você não se sentir preparado para tal, sinta-se à vontade para recusar. Nessa situação, procure alguém que possa fazê-lo.


8 - PARA PENSAR

O que podemos fazer concretamente para que a nossa Igreja seja um lugar acolhedor para as pessoas portadoras de deficiência?

Vamos nos dividir em grupos. Cada grupo pode propor um ou dois serviços de acolhimento e evangelização das pessoas portadoras de deficiência. Vamos depois conversar com o pastor(a) da nossa Igreja para viabilizar as melhores propostas.


9 - CONCLUINDO

A evangelização e os serviços de ação social, sociabilidade, educação cristã e discipulado, entre outros, devem ser planejados e executados de modo que estejam interessados, atentos e preparados para atender também as pessoas portadoras de deficiência física.

Mas se em último caso, a igreja não conseguir criar mecanismos e serviços para a participação plena das pessoas portadoras de deficiência, que ao menos elas se sintam muito amadas pelo povo da igreja.
Queremos que a Igreja seja o melhor lugar e a melhor companhia para as pessoas portadoras de deficiência. A Igreja tem de ser um pedacinho do Céu na terra.
Devemos nos lembrar que, independente das necessidades — especiais ou não — cada pessoa é um ser humano, com virtudes, qualidades, pecados, contradições, com sua própria personalidade e jeito de ser, com sonhos, anseios, desejos. São também filhos e filhas de Deus, aos quais Deus quer salvar.
E, como acontece com qualquer pessoa, todos nós gostamos de respeito, educação e cortesia. Assim sendo, seja com quem for que estivermos tratando, independente da condição física, classe social ou qualquer outro fator, há uma regra de ouro que faz a nossa vida e a vida dos demais sempre melhor. Esta regra é: “Sê tu uma bênção!” (Gn 12:2).

10 - UMA PALAVRA AOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA:

Deus amou também os portadores de deficiência de tal maneira que deu seu filho Unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Confie em Deus. Busque força, capacitação e superação em Deus. Todas os mandamentos de Deus são também para as pessoas portadoras de deficiência. Todas as promessas de Deus são também para as pessoas portadoras de deficiência física, inclusive as bem-aventuras de Mt 5:1-12, a promessa do Espírito Santo de At 1:8; da salvação pela graça de Deus de Ef 2:8-9 e também a herança do Reino: "Vinde benditos do meu pai para o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (cf. Mt 25:34).
Por isso, seja você também sujeito da sua própria história. Como disse Eleonor Roosevelt, "ninguém pode diminuir você sem o seu consentimento".


11 - CITAÇÕES E BIBLIOGRAFIA

(1) Embora não haja consenso, a terminologia mais adequada para nos referirmos a pessoas com algum tipo de deficiência é “pessoa portadora de deficiência”. A deficiência pode ser física, motora, sensorial ou mental ou múltipla, envolvendo mais de um tipo de deficiência. As pessoas portadoras de deficiência não gostam de ser tratadas por algumas expressões antigas que denotam preconceito e marginalização. Entre elas temos: aleijadas, defeituosas, deficientes (as pessoas embora sejam portadoras de deficiência, elas não são deficientes!!!), malucas, doidas, “mongolóides” (o correto é portadoras da Síndrome de Down), leprosas (o correto é portadoras de hanseníase!), etc... 
Muitas pessoas não gostam de ser tratadas e nem de tratar as pessoas portadoras de deficiência como “pessoas portadoras de necessidades especiais”, pois argumentam que qualquer pessoa pode ter necessidades especiais. A expressão, portanto, é inadequada. Ainda falando sobre expressões, nem toda pessoa portadora de deficiência visual é cega e nem toda pessoa portadora de deficiência auditiva é surda. As expressões cega e surda podem ser usadas.

(2) MULLER, Iara - Encarando a deficiência - Editora Sinodal - 1989 - pág. 49.
(3) Há ainda alguns sites (endereços eletrônicos) que podem ser acessados na internet, entre os quais:
- http://www.cedipod.org.br - Centro de Documentação e Informação do Portador de Deficiência
- http://www.entreamigos.com.br - Entre Amigos - Rede de Informações sobre Deficiência 
- http://www.pgt.mpt.gov.br/deficiente/legislacao/index.html - Página do Ministério do trabalho com a Legislação relacionada a pessoa portadora de deficiência
- http://www.mpdft.gov.br/Orgaos/PromoJ/prodide/prodide.htm - Promotoria de Justiça de Defesa do Idoso e do Portador de Deficiência.




LIÇÃO DO PROFESSOR


1 - Objetivo da lição

Refletir sobre a situação da pessoa portadora de deficiência física e refletir sobre serviços que podemos desenvolver em nossa igreja para acolher, incluir, evangelizar e discipular particularmente as pessoas portadoras de deficiência física ou motora.


2 - Delimitando o tema da aula de hoje

A situação das pessoas portadoras de deficiência e os desafios da nossa sociedade e da Igreja para a inclusão delas na vida quotidiana são amplos e não há como ser tratados e discutidos numa lição e num único dia. Assim sendo, vamos nos limitar a falar genericamente desses desafios, pensando basicamente a inclusão das pessoas portadoras de deficiência na Igreja local. Estaremos também priorizando a inclusão das pessoas portadoras de deficiência física e motora, pois os desafios da inclusão das pessoas com eficiência sensorial ou mental também é muito amplo e impossível de ser tratado também nessa lição.

Também não vamos refletir teológica e pastoralmente sobre a deficiência.

3 - O texto Bíblico

O texto bíblico está minimamente apresentado na lição do aluno.

Se houver condições e necessidade, ele pode ser relacionado também com a parábola do Bom Samaritano (Lc 10:25-37). O Bom Samaritano é o que desobedece as leis civis e religiosas de sua época para que o amor e a solidariedade fossem vividas em relação à pessoa agredida e abandonada naquele caminho de Jerusalém para Jericó. Mais importante que a lei, a tradição e os costumes é o amor que inclui, respeita, solidariza e cuida do outro. Particularmente dos “pequeninos” de Deus (Mc 25:34-40). Contra o amor e os frutos do Espírito não há lei (Gl 5:23). Aliás, o cumprimento da lei (de Deus) é o amor (Rm 13:10).

4 - Roteiro para a aula de hoje

a) Ore com o grupo.
b) Exponha ao grupo o objetivo da lição e as delimitações do assunto, ou seja, por falta de condições de tempo e espaço vamos estar falando genericamente apenas das pessoas portadoras de deficiência física e motora.
c) Leia o texto Bíblico e converse com o grupo sobre ele. Dê as ênfases apresentadas na lição do aluno.
d) Converse com o grupo sobre as duas primeiras perguntas (item 2 da lição do aluno).

OBS: Embora não haja consenso, a terminologia mais adequada para nos referirmos a pessoas com algum tipo de deficiência é “pessoa portadora de deficiência”. A deficiência pode ser física, motora, sensocial ou mental ou múltipla, envolvendo mais de um tipo de deficiência. As pessoas portadoras de deficiência não gostam de ser tratadas por algumas expressões antigas que denotam preconceito e marginalização. Entre elas temos: aleijadas, defeituosas, deficientes (as pessoas embora sejam portadoras de deficiência, elas não são deficientes!!!), malucas, doidas, “mongolóides” (o correto é portadoras da Síndrome de Down), leprosas (o correto é portadoras de hanseníase!), etc...
Muitas pessoas não gostam de ser tratadas e nem de tratar as pessoas portadoras de deficiência como “pessoas portadoras de necessidades especiais”, pois argumentam que qualquer pessoa pode ter necessidades especiais. A expressão, portanto, é inadequada. Ainda falando sobre expressões, nem toda pessoa portadora de deficiência visual é cega e nem toda pessoa portadora de deficiência auditiva é surda. As expressões cega e surda podem ser usadas.
e) Peça a um aluno que exponha resumidamente o item 3 da lição do aluno - “Pessoas Portadoras de Deficiência São Pessoas”.
f) Peça a um segundo aluno que exponha o item 4 da lição do aluno - “Deus quer que todos sejam salvos”.
Fale você, professor, sobre o item 5 da lição - “Como Conhecer os Desafios das Pessoas Portadoras de Deficiência”.
g) Peça a 5 alunos diferentes para expor os 5 itens do “Como Lidar Com As Pessoas Portadoras De Deficiência”. Ao final, pergunte ao grupo, se ele teria mais alguma sugestão.
h) Para preparar a tarefa final, a classe pode ser dividida de 3 a 6 grupos. O trabalho de grupo pode demorar uns 10 minutos. Depois os grupos relatam resumidamente o que propuseram.
i) Faça o fechamento da lição (veja o item 7 - Concluindo).
j) Ore com o grupo, pedindo para que as pessoas portadoras de deficiência nunca mais sejam invisíveis aos nossos olhos, amor e cuidados.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

MARAVILHADOS COM SUA INCLUSÃO



"Neste ponto, chegaram os seus discípulos e se admiraram de que estivessefalando com uma mulher; todavia, nenhum lhe disse: Que perguntas? Ou: Por que falas com ela?"  (João 4.27)

Rodolfo Garcia Montosa

Segundo o dicionário, discriminar é colocar algo ou alguém de parte, tratar de modo desigual ou injusto com base em preconceitos de alguma ordem, afastar-se por intolerância racial, religiosa, classista ou de outra natureza, fazer acepção de pessoas, destratar, ignorar, repulsar o semelhante, sob qualquer motivo ou motivação. Feio, não é?
Pois bem, era comum aos judeus discriminarem mulheres, crianças, deficientes, enfermos, estrangeiros - especialmente samaritanos - ímpios e pecadores de maneira geral. Mas Jesus era mesmo alguém muito avante de seu tempo. Aliás, muito avante do nosso tempo. Seus discípulos ficaram tão impactados, que sequer tiveram coragem de perguntar qualquer coisa quando o viram conversando com aquela mulher samaritana. Para Jesus não havia inferioridade, nem rivalidade. Por isso, os discípulos ficavam maravilhados com a maneira como Jesus incluía todos e todas em seus diálogos, em sua agenda, em seu coração.
Jesus não se relacionava com pessoas motivado pela cor da pele, pelo tamanho da conta bancária, pelos títulos pendurados na parede, pela beleza ou qualquer outra característica desse tipo. Seu movimento foi e continua sendo na direção de quem tem sede. Senão, vejamos.
Tudo começou com a sede física expressa por meio do simples pedido de água

Jesus estava com sede. Ao mesmo tempo que sua sede era real, tornou-se pretexto para iniciar seu diálogo. Sua capacidade de partir dos elementos simples e cotidianos da vida é sempre surpreendente. O ordinário, em suas mãos, torna-se extraordinário. Sede, fome, saúde, trabalho, sustento, natureza, e tantos outros elementos concretos da nossa vida e contexto tornam-se meios para nos relacionarmos com Jesus. Jesus se achega por meio de uma singela necessidade do dia a dia, mesmo que, no primeiro momento, não seja percebido.

Na sequência, a conversa aponta para uma sede na alma. 

Se Jesus tinha sede, maior, contudo, era a sede daquela mulher samaritana expressa nos seus múltiplos relacionamentos conjugais. Como não poderia ser diferente, Jesus, cheio do Espírito Santo, logo discerniu que nem os cinco maridos, nem o atual companheiro poderiam preencher suas expectativas, desejos e apetites profundos. Estava fadada à vida insaciável que não é suprida por cônjuges, filhos, títulos, dinheiro, sexo, drogas, posição, poder, fama, status e tantas outras ilusões. Mesmo aproximando-se de maneira inclusiva, Jesus revela a verdade de sua vida sedenta e passa a ser percebido como profeta de Deus.

Por fim, a conversa encaminha-se para a verdadeira sede espiritual. 

Mais que na alma, a mulher samaritana tinha sede de Deus. Por isso, apresentou seu dilema: onde encontro Deus? Qual o lugar para adorá-lo? Aqui neste monte ou em Jerusalém? Ora, percebendo a sinceridade de seu coração, Jesus lhe revela que Deus é espírito e que ele é o Messias que havia de vir. Ao longo da conversa, os olhos espirituais da samaritana foram abertos. Não era simplesmente um profeta, mas o próprio Ungido de Deus com quem estava conversando. Não se conteve e chamou toda a sua comunidade para conhecer a Cristo. O olhar do Senhor estava focado no coração quebrantado, humilde e sincero daquele povo. Foi tão atraído pela sede espiritual que ficou ali dois dias inteiros e intensos com todos (Jo 4.43).

Da mesma maneira como fez com a mulher samaritana, o Senhor inclui em sua agenda nos dias de hoje todo aquele que tem verdadeira sede, mesmo que esteja perdido em tantas tentativas de saciar-se. Fazendo assim nos ensina a proceder da mesma maneira com outros. Somente no Senhor podemos ter nossa sede satisfeita e nossos corações fartos. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

ONU condena altos preços dos medicamentos



RIO — O Painel de Alto Nível sobre o Acesso a Medicamentos criado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, divulgou nesta quarta-feira um relatório que recomenda maior participação dos governos no desenvolvimento de novos medicamentos para melhorar o acesso da população mundial a tratamentos.
De acordo com o relatório, o preço alto de remédios e a falta de cuidado para algumas doenças afeta igualmente países pobres e ricos e são causados principalmente por custos cada vez maiores das tecnologias de saúde e a ausência de soluções para epidemias recentes como o vírus zika e a epidemia de ebola. O documento da ONU recomenda que os governos e a indústria farmacêutica trabalhem em conjunto para reduzir o preço de medicamentos essenciais, desatrelando o custo de pesquisa e desenvolvimento do valor final dos produtos.
Com quinze especialistas do mundo todo, incluindo os brasileiros Celso Amorim, ex-ministro e presidente da Unitaid, e Jorge Bermudez, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, o painel foi montado em novembro do ano ano passado para encontrar soluções para a incoerência política entre propriedade intelectual, as leis internacionais de direitos humanos, as leis comerciais e as necessidades de saúde pública.
“As críticas ao atual sistema de pesquisa e desenvolvimento (P&D), centrado na proteção patentaria e levando a monopólios e preços inacessíveis estiveram no centro do debate. Ressaltamos a questão fundamental dos direitos humanos como centro da discussão, contrapondo-se a direitos individuais, além da constatação de que o acesso a medicamentos hoje não é mais um problema restrito a países de renda baixa e média, mas sim algo que atinge a toda a população mundial. Não é possível para nenhum sistema de saúde absorver os preços exorbitantes de novas tecnologias, como acontece por exemplo com novos antivirais para o tratamento da Hepatite C e produtos oncológicos”, explicou Bermudez.
As recomendações do documento da ONU devem provocar um intenso debate entre apoiadores do atual sistema de desenvolvimento de medicamentos e aqueles que apoiam maior intervenção governamental no mercado. Segundo a agência de notícias Reuters, nem todos os membros do painel concordaram com as resoluções. O executivo-chefe da GlaxoSmithKline (GSK), Andrew Witty, teve sérias dúvidas em relação a nova proposta de pesquisa e desenvolvimento por conta da dificuldade de arrecadação dos fundos que os governos precisariam para fazer o modelo funcionar.
Outra recomendação do relatório que deve levantar polêmica é a possibilidade de países pobres que tenham dificuldade para pagar por remédios para o tratamento de doenças mortais, possam acabar com a patente para conseguir fornecer genéricos mais baratos.
De acordo com o “Financial Times”, a indústria farmacêutica teme que essa resolução possa encorajar países que já estavam pensando em emitir licenças obrigatórias para alguns medicamentos. As empresas fizeram pressão para que esse item não fosse incluído no documento final alegando que tentativas unilaterais de invalidar patentes passariam por cima das leis que protegem investimentos do setor privado na criação de novos remédios.
A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) comemorou as recomendações do relatório da ONU e ressaltou, em nota, a importância dos governos adotarem as recomendações feitas pelo documento da ONU.
“O Painel de Alto Nível sobre o Acesso a Medicamentos apresenta recomendações práticas para ajudar a superar desafios que nossas equipes médicas vêm enfrentando há décadas. A MSF faz um apelo aos governos e à indústria para que implementem rapidamente as recomendações do relatório, incluindo a demanda por mais transparência das empresas farmacêuticas no que diz respeito aos custos de pesquisa e aos preços dos medicamentos”, disse Rohit Malpani, diretor de políticas e análises da Campanha de Acesso de MSF.
Em abril deste ano, a MSF divulgou o relatório “Lives on the Edge: Time to Align Medical Research and Development with People’s Health Needs“ (Vidas no limite: é hora de alinhar pesquisa e desenvolvimento médicos às necessidades de saúde da população, em português), que diagnostica o fracasso do sistema atual de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos e sugere novas formas de desenvolver ferramentas que atendam melhor às necessidades das pessoas, por preços que elas possam pagar.

sábado, 23 de julho de 2016

Qual deve ser a atitude do cristão em relação ao dinheiro


Rachel Blackman
Deus criou-nos e supriu-nos com tudo que temos. Assim, temos a responsabilidade de cuidar dos recursos que Ele nos deu. O que temos deve ser visto como uma dádiva de Deus e não como algo a que temos direito. Uma visão de mundo comum é que ter riquezas é importante. Entretanto, as riquezas e a bênção não estão necessariamente ligadas. Na Bíblia, muitas pessoas que serviram fielmente a Deus eram pobres em termos materiais.
A maneira como lidamos com o nosso dinheiro e as nossas posses é um sinal do nosso comprometimento com Deus. Deus concentra-se nas nossas atitudes em relação ao que temos e não a quanto temos. Somente quando a nossa atitude for correta, usaremos o dinheiro da maneira que melhor serve a Deus e às pessoas à nossa volta.
Leia Mateus 6:19-34
Esta passagem faz parte do “Sermão da Montanha”, em que Jesus fala do Reino de Deus. Ela desafia as nossas atitudes em relação ao dinheiro e às posses.
  • O que significa acumular tesouros no céu?
  • De que forma as atitudes do Reino de Deus diferem das atitudes do mundo?
  • O versículo 24 diz que podemos servir a Deus ou ao dinheiro, mas não a ambos. Que medidas práticas podemos tomar, para que não nos tentemos a servir ao dinheiro?
  • O que os versículos 25-34 nos dizem sobre a segurança que encontramos em Deus? Como esta segurança se compara à segurança que encontramos no dinheiro?
  • Como esta passagem nos desafiaria a considerarmos a maneira como usamos o nosso dinheiro: individualmente? como organização?
Fonte: TEARFUND

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Mais de 45 milhões de pessoas vivem sob alguma forma de escravidão no mundo

Cerca de 45,8 milhões de pessoas em todo o mundo estão sujeitas a alguma forma de escravidão moderna. A estimativa é do relatório Índice de Escravidão Global 2016, da Fundação Walk Free. Segundo o documento, 58% dessas pessoas vivem em apenas cinco países: Índia, China, Paquistão, Bangladesh e Uzbequistão. Já os países com a maior proporção de população em condições de escravidão são a Coreia do Norte, o Uzbequistão, o Camboja e a Índia.
FONTE: TV Brasil


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Por que a América Latina é a região onde mais cresce o consumo de cocaína no mundo


CocaínaImage copyrightTHINKSTOCK
Image captionO consumo de cocaína no Cone Sul disparou mais do que em qualquer outra parte do mundo

Boris Miranda - @ivanbor
http://www.bbc.com/portuguese

Antes considerada uma droga para ricos, a cocaína hoje é usada em favelas de São Paulo, bares de Montevidéu ou universidades de Bogotá.
A droga e seus derivados estão em setores de baixo nível socioeconômico, classes médias, entre jovens e adultos, universitários e homens de negócios.
O consumo de cocaína na América do Sul supera em quatro vezes a média mundial.
E não fica só nisso. O Cone Sul desbancou a Europa como a segunda região com mais usuários, atrás apenas da América do Norte.
Os dados aparecem em relatório divulgado nesta semana pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime).

cocaína

O mesmo relatório aponta que o consumo de cocaína no Cone Sul disparou mais do que em qualquer outra parte do mundo entre 2009 e 2015, e que sua porcentagem de usuários se aproxima cada vez mais do índice dos Estados Unidos.
A América do Sul não é mais a região que apenas abastece os mercados de cocaína de América do Norte, Europa e Ásia. Tem seu próprio mercado e o número de consumidores avança rapidamente.
E de modo mais veloz do que o resto do mundo, aponta o informe do UNODC.

cocaínaImage copyrightREUTERS
Image captionO mercado da cocaína na América do Sul avança de forma rápida, com consequências na segurança pública

Dimensão do crescimento

Enquanto 1,6% da população da América do Norte experimentou ou usou cocaína no último ano, o índice chegou a 1,5% na América do Sul.
A média mundial é 0,4%.
Consumo de cocaína na América do Sul
PaísPorcentagem de uso na população
Uruguai1,8%
Brasil1,75%
Chile1,73%
Argentina0,73%
Colômbia0,70%
Peru0,69%
Venezuela0,64%
Bolívia0,36%
Paraguai0,25%
Equador0,08%
Média1,5%
Fonte: Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC)
Segundo Angela Me, chefe de investigações e análise de tendências do UNODC e principal autora do estudo, diferentes fatores explicam a alta no uso de cocaína na América do Sul.
"Além do aumento na renda em toda a região, a cocaína agora tem um mercado maior. A cocaína costumava ser uma droga para gente rica, mas agora temos países como o Brasil onde a droga se usa em outras camadas da sociedade",disse a pesquisadora à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Outro elemento, diz Angela Me, é o aumento no número de consumidores esporádicos, que não usam a droga regularmente.
"Por isso há um incremento na quantidade de consumidores, mas não tanto no volume de cocaína usada", diz.
Há bares em todas as camadas da sociedade onde sempre há traficantes. É muito provável que um usuário de drogas tenha um telefone do vendedor ou de algum amigo dele."
Guillermo Garat, autor de "Maconha e outras ervas: proibição, regulação e uso de drogas no Uruguai".
Na avaliação do pesquisador Ricardo Soberón, ex-chefe antidrogas do Peru, o relatório mostra como a produção da folha de coca e da cocaína cresceram na esteira do aparecimento de novos mercados.
"Isso está levando a um problema complexo de ordem global", afirmou Soberón.

Por que tantos novos consumidores?

O Uruguai encabeça a lista de países sul-americanos com maior número de consumidores.
Sua porcentagem (1,8%) supera a da América do Norte (México, Canadá e EUA, 1,6%), embora ainda esteja abaixo da dos EUA (2,1%).

Cocaína apreendida na BolíviaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionApreensão de cocaína na Bolívia: mercado sul-americano se multiplicou e produção circula mais entre países da região

O jornalista Guillermo Garat, autor do livro "Maconha e outras ervas: proibição, regulação e uso de drogas no Uruguai", ressalta, sobre o líder de consumo na região, que o Uruguai tem renda per capita alta em comparação com outros países do continente.
"A cocaína é muito barata (de US$ 11 a US$ 15 o grama) e praticamente não mudou de preço desde o ano 2000", diz Garat.
O jornalista lembra ainda que na região a cocaína costuma estar "disponível 24 horas, mediante apenas uma chamada telefônica".
"A cocaína também está territorializada. Há bares em todas as camadas da sociedade onde sempre há traficantes. É muito provável que um usuário de drogas ou um amigo tenha o telefone de um traficante".
Segundo Angela Me, o relatório mostra que o consumo de drogas cresceu em geral no Uruguai, e não se trata apenas de cocaína.
Sobre o Brasil, a pesquisadora diz que é preciso considerar o índice alto de consumo de derivados da cocaína de baixa qualidade, como o crack e outras substâncias feitas a partir de resíduos da pasta-base.
Situação semelhante ocorre na Argentina e no Chile.
Com a disponibilidade de substâncias de baixa qualidade e preço, o número de consumidores e de viciados sobe.

Helicóptero patrulhaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionControles se intensificaram nos últimos dois anos na selva peruana para coibir os chamados "narcovoos" ao Brasil

Nos últimos dois anos, países como Bolívia e Peru redobraram esforços para conter o corredor aéreo de tráfico de cocaína que conecta seus países ao Brasil, maior mercado da região.
Autoridades bolivianas e peruanas chegaram a apontar que até 20 aviões de pequeno porte por dia realizavam os chamados "narcovoos" ao Brasil.

Alternativas

O UNODC defende a necessidade de novas políticas públicas para enfrentar esse aumento no número de usuários de cocaína na região.
"O primeiro a se fazer é prevenção. Trabalhar com famílias e nas escolas. Criar programas específicos focados na população jovem para prevenir o consumo de drogas", diz Angela Me.
A integrante do UNODC diz ainda que os países precisam pensar políticas para os consumidores de drogas, com ações de tratamento para conter consequências pessoais e sociais do uso.

Consumidores de crack en Sao PauloImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionAs "cracolândias" espalhadas pelo Brasil são exemplo do avanço do consumo de derivados da cocaína no país

Contudo, os próprios países sul-americanos questionam a baixa efetividade da comunidade internacional para mudar as políticas públicas nessa área.
Governos de países como Bolívia, México, Uruguai e Guatemala apresentaram posicionamentos críticos na última sessão especial da ONU sobre drogas, em abril.
Disseram considerar, por exemplo, que declarações da ONU não avançam de fato rumo a uma mudança real de paradigma na luta contra as drogas, e propuseram novas medidas em relação á regulação e legalização de substâncias controladas.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...