sábado, 15 de outubro de 2011

AS PRINCIPAIS VÍTIMAS DA CORRUPÇÃO

Antônio Carlos Costa - http://palavraplena.typepad.com
O momento mais democrático e comovente da marcha contra a corrupção em Copacabana passou despercebido por muitos de nós. A manifestação estava terminando, quando o carro de som teve que parar na altura da avenida Princesa Isabel, a fim de que membros da classe média do Rio de Janeiro, que compunham a maioria dos participantes do ato público, pudessem se juntar a dezenas de crianças pobres da Favela Mandela, do Complexo de Manguinhos, que também participavam do protesto, pintando vassouras de verde e amarelo nas areias da praia.
Aquelas crianças haviam feito uma viagem de apenas trinta minutos, que as fez sair de um mundo e entrar em outro. O que, por instantes, havia ficado para trás, quando cruzaram as fronteiras sociais rígidas de uma mesma cidade? Por um breve momento, elas se viram livres das ratazanas que infestam suas ruas e casas. Em vez de mergulharem nas águas fétidas e contaminadas do rio Jacaré, banhavam-se alegremente nas águas de uma praia que parece não ter sido criada para elas. Nada de som de tiro de fuzil. Nenhum corpo crivado de bala na frente de casa. Muito menos o agente do poder público dando tiro a esmo. Todas têm um histórico na vida de mortes trágicas, boçais, gratuitas. Elas conhecem a cor e o cheiro do sangue humano absorvido pela terra suja. Sabe o nome não oficial do lugar onde moram? Faixa de Gaza.
Lutar contra a corrupção é lutar pela vida das principais vítimas de crime abominável e tão presente na cultura política do Brasil. Por que essas crianças não têm acesso a área de lazer, moradia digna, proteção do Estado, acesso a educação que as faça apaixonarem-se pelos livros? Porque parte da -extraordinária riqueza de um país de dimensão continental- é desviada da sua finalidade constitucional, o povo pobre, para cair na conta bancária de gente que perdeu a alma, uma vez que acumula o que não precisa a fim se sentir segura, ser adulada e trazer conforto para parentes que nunca questionam a incompatibilidade entre renda e padrão de vida da família. É impossível conhecer o Complexo de Manguinhos e manter o respeito pela autoridade pública brasileira.
O Brasil não precisa de uma primavera de indignação popular. Carecemos de um movimento que transcenda uma única estação do ano, capaz de criar uma cultura de controle social dos gastos e serviços públicos mediante pressão incansável nas ruas.
A classe média tem o direito de protestar. Ela tem pagado a conta, enfrentando diariamente trânsito infernal e submetendo-se -na cultura ensandecida do lucro como medida de todas as coisas-, a uma jornada de trabalho desumana, que impede milhares de cidadãos brasileiros de terem tempo para a poesia, o amor, a boa leitura, o lazer. A liberdade de imprensa, conquista recente da nossa jovem democracia, com todo o seu acúmulo de denúncias de desvio de verba pública, tem levado à revolta milhares dos contribuintes brasileiros que repassam um terço do rendimento do seu suado trabalho para um Estado que parece ser contra o cidadão.
Nada se compara, contudo, à condição do pobre. Estes não têm sabido como se safar. Nós ainda damos um jeito. Mas, e aquelas crianças que tomaram o caminho de volta para casa depois da manifestação em Copacabana? O que encontraram ao retornarem para casa?
Há um motivo para nós irmos às ruas protestar, numa ação suprapartidária, na qual eliminemos nossas diferenças a fim de que, unidos, lutemos por valores que nos são comuns: os efeitos deletérios da corrupção na massa de crianças e jovens pobres do Brasil.

Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz

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Ps 1. Esta foto foi batida por mim na segunda-feira passada, quando fazia visita à favela Mandela. Atônito, registrava crianças nadando num rio de esgoto, o rio Jacaré, que corta a favela do Jacarezinho e o Complexo de Manguinhos. Se você for lá, nunca mais deixará de protestar contra a corrupção. 

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Ps. 2 Esta foto, tirada no mesmo dia, revela o lugar onde essas crianças moram. Lembro-me do susto que tomei esses dias, ao ver uma enorme ratazana num barraco de um único cômodo, onde moram três crianças cujos pais são dependentes químicos de crack.

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