sexta-feira, 15 de abril de 2011

Contra a corrupção, robôs. A tecnologia pode acabar com o assalto ao patrimônio público

Danilo Gentili


Tive a sorte de participar com a equipe do programa CQC, da TV Bandeirantes, da execução de uma ideia que, para alguns, parecia mirabolante. Para nós, no entanto, tratava-se de algo tão simples quanto colocar uma minhoca na ponta de um anzol e lançar ao mar. A jogada era boa: doaríamos uma TV de plasma para o poder público encaminhar a uma escola. Não sem antes equipá-la com um GPS. Assim poderíamos monitorar o aparelho e saber todas as coordenadas sobre seu destino final. 

Antes de contar o resultado da experiência, consulte-se sobre o tema “comportamento humano x integridade do poder público”. Tente adivinhar onde nossa doação foi parar. Se você respondeu “na casa de um funcionário público”, parabéns. Pode ficar feliz por ter acertado. Mas não nego que sua vitória me deixa triste porque sei que você só chegou a essa conclusão por se basear na má fama de nossos servidores públicos.



Esse episódio levou-me a refletir sobre algumas questões importantes: o ser humano é corrupto por natureza? Segundo o ranking da ONG Transparência Internacional, os brasileiros conseguem ser mais corruptos que muitas outras nações. Isso significa apenas que em todo mar tem peixe pequeno e grande. No que lançamos nossa isca em forma de TV de plasma, parece que os peixões existem em quantidade bem maior. 

Não fomos os pioneiros em usar tecnologia contra a corrupção. Lawrence Lessig, advogado e professor da Universidade de Stanford, lançou um movimento para que os políticos americanos apoiem iniciativas para tornar as contas públicas mais transparentes. Segundo ele, um portal para deixar os orçamentos dos governos mais claros a todos pode ajudar no combate à corrupção. Iniciativas como essa são ótimas. Assim como era perfeita a invenção daquele sistema político que ainda é atual e que visa tornar a democracia mais acessível a todos. Infelizmente o que não parece claro e transparente é o futuro dessa e de qualquer outra ideia criada para acabar com a corrupção, já que o problema não é o sistema, e sim quem o opera. 

O guindaste nos permite erguer toneladas. Por que criamos essa tecnologia? Porque temos consciência de que somos incapazes de fazer isso com o próprio braço. O avião nos transporta rapidamente pelo céu. Por que criamos essa tecnologia? Porque sabemos que somos incapazes de voar. Quando se cogita a ideia de criar uma tecnologia para acabar com a corrupção, é sinal de que jogamos a toalha. Reconhecemos que somos incapazes de não sermos canalhas quando temos a faca e o queijo na mão. 
Se a história ensinou que o poder corrompe — e, convenhamos, chefiar um portal de “transparência política” é, de certa forma, um tipo de poder —, talvez logo falarão de um fiscal para deixar transparente o portal da transparência. Quem sabe até, depois disso, de um sistema para fiscalizar o tal fiscal.

Como sou um realista extremista sem perder o escapismo da fantasia, lanço aqui outra ideia: a única esperança de vencer a corrupção é com a criação de um robô independente capaz de operar essa tecnologia. E que o tal robô não seja criado a nossa imagem e semelhança. Do contrário, quando a lata de sardinha se transformar em um operador da tecnologia de combate à corrupção, corremos o risco de ouvir o “oinc” metálico de um porco eletrônico de George Orwell. 
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